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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Imagem do filme Until the end of the world, Wim Wenders, 1991

“Until the end of the world”, o mundo sem fronteiras, veloz e simultâneo

‘Home is where you go when you run out of places’, (Until the end of the world (1991), Wim Wenders, 36’21’’)

O filme Until the end of the world (1991) de Wim Wenders revela retalhos de uma cidade-mundo onde as pessoas se movimentam com fluidez à procura de imagens. As pessoas estão em todo lado e em lado nenhum. Estão em busca de um sentido em lugares que não param, onde não se distingue o dia da noite, a chuva do sol.

No filme vive-se num momento futuro em que as comunicações globais instantâneas já dominam, mas em constante ameaça de serem extintas. Existe uma heterogeneidade de sons, de imagens, de sítios e de pessoas. A velocidade, a simultaneidade, a telepresença e a transparência são a realidade de todos. É impossível passar despercebido, é muito difícil escapar à rede informática. A omnipresença eletrónica e a ausência de fronteiras físicas e virtuais possibilitam que as personagens se desloquem entre Veneza, Paris, Berlim, Lisboa, Moscovo, Pequim, São Francisco e Coober Pedy, Austrália.

Por causa dessa velocidade, o espaço que aparece no filme parece esvaziado de tempo. A duração e a espessura das horas desaparecem em benefício da lógica espacial das imagens produzidas pelas cidades por onde se passa. A velocidade e a inexistência de tempo permitem, tal com Guy Debord descreve no livro A Sociedade do Espetáculo, a sucessão imparável de imagens nas cidades e a mais rápida alienação das pessoas: “Quanto mais o indivíduo contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo.” (Debord 2024, 18)

As cidades deste filme são definidas por movimento, fluidez e circulação. Paul Virilio afirma que a aceleração do tempo propiciada pela evolução técnológica e pelos meios de comunicação electrónicos desarticulam a natureza do tempo e acabam com o espaço que agora é um lugar de velocidade pura (Marzabal 1998, 308).

Em Until the end of the world, as ruas são passagens entre a massa construída. As cidades, de longe, têm torres, são densas, são atravessadas por estradas e comboios em vários níveis e a luz é quase sempre artificial. De perto, os objetos construídos, no seu interior, estão destruídos, vandalizados e estão cheios de pessoas (como por exemplo o hotel em Moscovo).

O filme põe em confronto dois espaços: o espaço simultâneo, ominipresente, múltiplo, fragmentado submetido a inúmeros estímulos visuais; e o espaço contido do deserto tão vazio como qualquer reinício. As imagens recolhidas por Sam e Claire no mundo disperso e fluído irão ser consumidas no mundo vazio e contido. (Marzabal 1998, 314) A cidade deste filme é o lugar que facilita a interação entre a velocidade e o controlo. É a cidade que possibilita o encontro, as comunicações, as trocas e a fuga. Parece interminável e é lugar de transformações intensas, de simultaneidades inevitáveis, de camadas sobrepostas e de diversos meios transporte.

A velocidade neste filme desafia a ordem estabelecida (Claire consegue fugir com o dinheiro roubado). Deste modo, o automóvel de Claire simboliza a dualidade do conceito de velocidade urbana: consegue ser o representante máximo da liberdade individual, através da sua mobilidade e ao ser objeto que permite explorar o mundo e trazer novos caminhos; mas é simultaneamente um objeto que está completamente entrelaçado com os sistemas de controlo, o carro de Claire está constantemente a dar-lhe ordens e só a partir do momento que a personagem resolve ignorar essas ordens que a sua história muda. Neste filme, é a velocidade do mundo que traz novas possibilidades a Claire, que deseja encontrar um novo propósito na sua vida sem sentido, nem lugar.

Na vida pós-moderna, descrita no filme, ora são as pessoas que se movimentam ora são os sítios que se alteram a uma velocidade incrível. A hiperatividade, a hipervelocidade, a superprodução e a fragmentação provocam a cegueira e a confusão de imagens descontextualizadas e sobrepostas. Mas, no filme assim que a deslocação física e a desaceleração tomam lugar começa a verdadeira jornada na vida de cada um.

Ao logo do filme os não-lugares da omnipresença e da instantaneidade vão dando gradualmente lugar a memórias e a sensações demoradas. E por isso não importa onde estar ou onde morar, Claire encontrará um lugar para pertencer.

Ana Ruepp

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