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O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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ALMADA E A “FACILIDADE” DO TEATRO. UMA REFLEXÃO FILOSÓFICA


O teatro de Almada Negreiros percorre, no seu conjunto, uma escala de acessibilidade imediata, perante o espetador, que nos leva do quotidiano epocal das primeiras peças, marcadas muitas vezes por um teor pró-realista, à destemporização digamos assim de outros textos posteriores: e por todos, cito, neste aspeto, a profunda reflexão filosófica dos dois últimos textos dramáticos conhecidos – “Galileu. Leonardo e Eu”  que parte de uma reflexão sobre Picasso, e “Aqui Caucaso”: ambas de 1965, partem de expressões dialogantes para sínteses do pensamento de Almada no plano estético e existencial. Haveremos de as analisar em maior profundidade.

É significativo que Almada, num texto que denominou precisamente “O Meu Teatro” dedicado “a Fernando Amado que pôs em cena duas peças minhas: sinto -me pago em artista e em amigo”, inclui, em nota preambular, uma reflexão estética e existencial sobre a arte do teatro – o dele, Almada, mas mais ainda o da criação literária-espetacular que o teatro significa e representa.

Retoma um princípio que já temos encontrado: “Teatro é o escaparate de todas as artes.” O que logo identifica a dimensão de espetáculo da criação teatral. E isto porque, lê-se no final do mesmo texto, ”a não-ação em teatro parece contradição. Não ação é o que distingue teatro dos espetáculos cinema e televisão”. Porquê? Direi eu que só no teatro a presença necessária do publico e a ação direta dos atores perante o publico caracterizam a própria essência da arte teatral – direta e sistematicamente criada e transmitida  dos artistas para os que  participam no simples ato de assistir diretamente…

E no mesmo texto, Almada esclarece: ”perguntaram-me se teatro não era a mais facil das artes. Respondi: não há artes mais fáceis, qualquer delas é facilidade. Teatro é facilidade, ali, à vista de todos”.

E mais ainda: “Arte é tornar facil o difícil. O difícil é o espontâneo. Este vem no fim. Pois quando foi primeiro não estava lá o próprio”. E isto porque “a amplitude do significado de Teatro é tal que não suporta categorias. Apenas esta: o Teatro de Fulano. Nenhuma outra arte tem grafologia tão rigorosa. É impressão digital do autor. Cadastral”…!

 

Duarte Ivo Cruz

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