13.
Mãe que um dia vi
A cabeça da flor inclinar-se
O neto da avó de olhos limpos de pouco
E as mãos do vento em cores
Debruçadas nas faces da casa
Mãe reluz e diz-me
Para onde é afinal o calmo
Que já não o paraíso
Mas local sereno aos sonhos
Seguros nos pés
Mãe
É por muitos amores vencidos
Que não crês diferente o sabor
Salgado por tuas lágrimas
Que purpúreas e tão próprias na pintura
Bordaram os mil monogramas
E ficaste nome, pomo, pátria
Tornado
Romã
Rubi
Cacho
Pirâmide
Dano
Mãe
Mulher
Que as aves no ar, o chão também povoam
E em tal graça que a ninguém espanta
Ou descobre ninho
Ou só no afinal que era
Ou nunca chegou a ser
Ou ninho houvera
Lá no caminho por onde a floresta
Incauta te convidara
Ao som da harpa que flauta era
E ludibriada nos poucochinhos
Deixou-se quem? Ela ou tu? lavar em pura água
Quando a cabeça da flor se inclinou
No mesmo antes do morrer
E cuidei-me sem laço ou rede
Espingarda de lã fina, meu inverno
Minha quente
Mãe
Teresa Bracinha Vieira
2015
14.
Entraste na minha vida
Cão caçador
De coleira solta
Patas conhecidas no amor
E sofrido de dores anteriores
Ágil
Foste
Meu cão amador
Dono da tua presa
Latindo belos sonetos
Disposto a destemidas lutas
Namorado, cavaleiro, soldado
Firme ou pressuposto
Afortunado
Foi teu o belo fado
No te dar o meu amor
Entraste pois na minha vida
Cão caçador
Um dia de dias
Chegaram então
As rendidas vontades
Dos fugires por breves espessuras
E tua ventura é tal que ainda que busques ontem
Na rua pela qual já regressas apressado
Quem te disse que tu foste o cão caçador
Se te sigo mil vezes quando me cansas
E outras tantas quando me queres ou não
Ofício que no coração me aparece
Solto
Sem detença
Apenas sumptuoso templo
O nosso
Esse mesmo que os deuses
Querem de ternuras esculpir
Meu caçar
De humana forma
Teresa Bracinha Vieira
2015

