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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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PORVENTURA VERSOS

 13.

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Mãe que um dia vi

A cabeça da flor inclinar-se

O neto da avó de olhos limpos de pouco

E as mãos do vento em cores

Debruçadas nas faces da casa

 

Mãe reluz e diz-me

Para onde é afinal o calmo

Que já não o paraíso

Mas local sereno aos sonhos

Seguros nos pés

 

Mãe

É por muitos amores vencidos

Que não crês diferente o sabor

Salgado por tuas lágrimas

Que purpúreas e tão próprias na pintura

Bordaram os mil monogramas

 

E ficaste nome, pomo, pátria

Tornado

Romã

Rubi

Cacho

Pirâmide

Dano

 

Mãe

Mulher

Que as aves no ar, o chão também povoam

E em tal graça que a ninguém espanta

Ou descobre ninho

 

Ou só no afinal que era

Ou nunca chegou a ser

Ou ninho houvera

Lá no caminho por onde a floresta

Incauta te convidara

Ao som da harpa que flauta era

E ludibriada nos poucochinhos

 

Deixou-se quem? Ela ou tu? lavar em pura água

Quando a cabeça da flor se inclinou

No mesmo antes do morrer

 

E cuidei-me sem laço ou rede

Espingarda de lã fina, meu inverno

Minha quente

Mãe

 

Teresa Bracinha Vieira

2015

 

14.

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Entraste na minha vida

Cão caçador

 

De coleira solta

Patas conhecidas no amor

E sofrido de dores anteriores

Ágil

 

Foste

Meu cão amador

Dono da tua presa

Latindo belos sonetos

Disposto a destemidas lutas 

 

Namorado, cavaleiro, soldado

Firme ou pressuposto

 

Afortunado

Foi teu o belo fado

No te dar o meu amor

 

Entraste pois na minha vida

Cão caçador

 

Um dia de dias

Chegaram então

As rendidas vontades

Dos fugires por breves espessuras

 

E tua ventura é tal que ainda que busques ontem

Na rua pela qual já regressas apressado

Quem te disse que tu foste o cão caçador

 

Se te sigo mil vezes quando me cansas

E outras tantas quando me queres ou não

 

Ofício que no coração me aparece

Solto

Sem detença

Apenas sumptuoso templo

O nosso

 

Esse mesmo que os deuses

Querem de ternuras esculpir

Meu caçar

De humana forma

 

Teresa Bracinha Vieira

2015

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