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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CONTOS BREVES

 

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«Velho com Barba» de Rembrandt.

 

7. VELHO E CRIANÇA 

“Avô, porque é que o Avô diz que os meninos crescem e o Avô não?” – Perguntas bem, Tomás, mas eu não sei responder… – “O Avô sabe tudo! Porque é que não me diz?”  –  Olha, se calhar é porque sei tudo, como dizes…  – “Então se sabe, diga!”  – Digo o quê? Talvez não percebesses…  – “O Avô acha que eu sou burro?” – Não, não acho. Só acho que és uma criança, um minúsculo, uma amostra de gente…  – “Mas o Avô é que disse que o Avô não sabia responder. Também é minúscula criança?”  – Ouve lá: és parvo ou quê? Achas que, com este corpanzil e barbas brancas, alguém acredita que eu seja um puto?  – “Já sei: o Avô não quer responder! Ou não sabe?” –   Já te disse que não sabia, mas se calhar sei… Sei lá, não me apetece dizer! – “O Avô está sempre a nos ralhar quando dizemos não me apetece, porque isso não se diz. E agora…”  –  Isso é quando não querem comer a sopa, dormir a sesta, dar um passeio a pé, ou arrumar os jogos. Quando os netos são preguiçosos ou caprichosos… –  “E o Avô agora não está a ser caprichoso?” –  Ó Tomás, vamos a ver se nos entendemos: o teu Avô, este que aqui está, não é nenhuma criança, já tem idade para ser caprichoso e preguiçoso  – e até amoroso com os netos que não o maçarem… Percebeste? Vá, ala, ala, arreda, como diria o infante Dom Afonso! –  “O que é um infante, Avô? É uma pessoa crescida que dá ordens, ou um velho que está sempre a querer dizer só o que lhe apetece, como o Avô? ” –   Olha, meu lindo: não é nada disso, é uma coisa que já não existe. –  “Porquê, Avô? Morreu?” –  Não morreu, nem deixou de morrer, sei lá… Talvez seja assim como ser criança : todos fomos ou somos, os que ainda são – como tu és – os que ainda gostam de ser – como eu, quando brinco contigo e com os teus irmãos.. Mas também há os que nunca foram, nem conseguem ser, porque o azar não deixou. –  “Ó Avô, o que é o azar?” – Perguntas bem, Tomás, porque és criança e não sabes, nem te passa pela cabeça o que azar possa ser. E eu não te respondo, porque sou velho e ainda não percebi.

 

Camilo Martins de Oliveira

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