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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CONTOS BREVES

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11. UM CARACOL SAUDOSO 

 

Na festa de S. Sebastião, como já foi contado, uma multidão de caracóis aplaudiu um menino desse nome e, em coro uníssono cantou-lhe o va pensiero. Talvez – penso eu agora, pois sou avô, e os avós têm de pensar o que podem – para lhe agradecerem, na onomástica efeméride, o seu carinhoso acompanhamento de um deles, que nunca deslocou, nem sequer tocou, apenas foi olhando e vendo, quiçá percebendo no silêncio – no silêncio que é a misteriosa voz das coisas que, por serem muito, falam pouco – como a amizade é, tão simplesmente, o inexplicável sentimento de uma presença, ainda que ausente. Há uns dias, na véspera do equinócio desta primavera, ao correr, ao fim da tarde, o cortinado que nos cobria da luz poente a entrada da casa, vejo, colado ao vidro de uma das janelas da porta, entre esse e o ferro forjado que o protege, um caracol solitário. Pasmei. Olhei-o, vi um gastrópode que era um olhar fixo. Retribuí-lhe o olhar, encostei a orelha ao lado interior do vidro, nada ouvi. Decidi que deveria ser eu a falar primeiro: “O Senhor caracol que vai desejar?” – assim ouvi muitas vezes a fórmula nas esplanadas dos cafés… Silêncio. Insisti. Nada. Antes de me irritar – sou facilmente irritável – achei melhor pergunta: “Estás à procura do Sebastião, caracol querido?” – “Percorri o jardim, subi os degraus de pedra desta entrada e, pela porta acima, aqui cheguei, a passo de caracol. O Sebastião não está? Não veio ver a primavera que chega amanhã e lhe traz, de presente, um eclipse e marés enormes?” – “Va pensiero, caracolito amigo, o Sebastião ainda não chegou, vem só depois da Páscoa, mas eu digo-lhe que vieste procurá-lo…” –  “Bem hajas, Avô, cá o espero!” – “Onde, meu lindo? Aí, colado a esse vidro? Não te peço para entrares, porque também não sei tratar de ti e não te quero magoar… Já é milagre grande – e dos maiores – estarmos aqui os dois à conversa… – “Não te preocupes, Avô, vê-se bem que és homem de pouca fé… O teu neto Sebastião, quando voltar, há de saber onde estou, já esta noite me encontrará nos seus sonhos. Sabes? Nós, os caracóis, somos assim: pequeninos e vagarosos, ninguém dá por nós, mas vamos aparecendo. Como a Páscoa na Primavera, e a saudade de Deus no coração dos homens.”

 

Camilo Martins de Oliveira

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