auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Minha Princesa de mim:

 

Previa-se mais chuva, mas a manhã surpreende-nos com um sol já primaveril. Talvez de pouca dura, mas ofereceu-me uma visita à “minha” cerejeira do Japão, prometedoramente coberta de rebentos anunciadores de sakura em flor, beleza mágica e efémera. Encheu-se-me o coração de memórias do Japão, sobretudo dessa ternura de comunhão com a natureza que nos embala a vida…

 

Lembrei-me dos hanámi, passeios e piqueniques debaixo das cerejeiras em flor (mankai no sakura): fazem-se por toda a parte, no deslumbramento da vida nova, ainda que efémera. Mesmo nos cemitérios: quantas vezes vi, em anos seguidos, centenas de japoneses, sentados em esteiras dispostas sob as árvores das avenidas do cemitério de Aoyama, em Tokyo, petiscando e bebendo saké e cerveja, na alegria da renascença… Pela Primavera, o arquipélago nipónico enfeita-se de muitas e variegadas flores, e campos e jardins alegram-se com elas e com os milhares de japoneses que acorrem a contemplá-las. Mais impressionante do que a tagarelice dos piqueniques, todavia, é precisamente o respeito, a íntima comunhão de todos e tudo nessa contemplação da beleza sempre efémera, renascente, eterna. Ocorre-me agora um poema de Tatsuji Miyoshi (1900-1964), Kiri no Hana, a flor da paulównia, que traduzo para ti:

 

          Subitamente mais fugitivas do que um sonho

          Flores de paulównia deixaram os seus ramos

          E mansamente dançando foram caindo

          Duas três quatro…

          E as felizes levadas pelo vento

          Desceram afagando o teu ombro…

          Que ciúmes tenho

          Dessas flores tão ricas de cor e de perfume

          Que em tardia hora do chão

          Foram recolhidas pela tua mão…

 

   Nem Salomão, disse Jesus, se vestiu com tanta glória.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *