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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O verdadeiro sentido do habitar – Casa do Poema do Ângulo Reto, Smiljan Radic

 

‘Depois de ter fechado tudo, abro de novo a porta
e corro cambaleante para a vazia escuridão’, José Tolentino Mendonça em Estrada Branca

 

Numa casa totalmente interior, totalmente virada para dentro entende-se a natureza, como uma presença permanente.

 

‘This is how a country person understands the environment. He doesn’t have to see cows or the hills all the time; he just needs signs that make him aware that he is in that place.’, Smiljan Radic

 

O desenho da Casa do Poema do Ângulo Reto (Vilches, Chile, 2010-12) revela a importância do espaço interior como abrigo, como tenda. Embora de quase fechada ao exterior, abrem-se lá dentro fronteiras incertas e ambíguas. Há ligações de contemplação, esporádicas e estratégicas, à natureza que a rodeia. Os inclinados volumes, que intersectam a grande superfície preta e opaca, não deixam sair o ar porém trazem a luz e o topo das árvores para dentro de casa.

 

A casa é um corpo hermético preto que separa o tempo de fora e o tempo de dentro e nada revela acerca do espaço interno, a não ser que é um espaço de refúgio, de proteção e de silêncio.

 

Tudo te pareça igual:

a noite e o dia’, José Tolentino Mendonça em A Papoila e o Monge

 

Mas ao contrário da Casa Chica que é feita de paisagem e não tem a possibilidade de ter um interior, a Casa do Poema do Ângulo Reto divide e fecha – é feita do que se passa lá dentro. O espaço interno é único e interrompido, no seu centro por um pátio. Existem cubículos, mas abre-se sempre a possibilidade de ver o espaço na sua totalidade – consegue-se sempre ver o outro, como que em constante vigia. Por isso, a casa, ao ser virada para dentro, tenta fortalecer as relações entre as pessoas que lá vivem. Cria um espaço interno, flexível mas completamente privado e de pertença, sensível a qualquer intrusão exterior.

 

‘…apesar do domicílio fixo, das horas certas
dormimos a céu aberto, pelas estradas’, José Tolentino Mendonça em Estrada Branca

 

Ana Ruepp

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