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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

Upper Lawn Pavilion é espaço-contentor infinito.

  


‘… tudo o que está em movimento é sempre melhor do que aquilo que está em repouso, que a mudança é mais nobre do que a estabilidade, que tudo o que estagna acabará por sofrer decomposição, degeneração e transformar-se-á em pó, enquanto aquilo que está em movimento consegue durar eternamente.’, Olga Tokarczuk In Viagens

O Upper Lawn Pavilion (Alison e Peter Smithson, 1959-1962) é composto pela natureza exterior. Dentro do pavilhão está-se sempre submerso na paisagem, porque esta está continuamente visível. A circunstância está lá, é referência para tudo e determina os limites da casa. Por isso, o seu espaço interno é incerto, mas completamente apropriável. É espaço-contentor infinito.

O Upper Lawn é um objeto que permanentemente pertence àquele sítio – está ancorado e aberto aos seus sons e às suas mudanças. A solidez dos materiais usados (pedra, madeira, metal, vidro) dão ao espaço um certo sentido de firmeza e de segurança. A natureza, que faz parte integrante do objeto construído, é o seu elemento improvável e variável – o espaço físico delimitado dentro do abrigo é inconstante ao relacionar-se diretamente com o que acontece lá fora. 

Na conversa “Upper Lawn Pavilion Strategy and Detail, Drawing  / Feeling everything at once” Stephen Bates revela que o Upper Lawn Pavilion foi desenhado como sendo um instrumento que questiona padrões de habitação ao estarem sincronizados com cada estação e com as rotinas de uma família em constante mudança. Na verdade, Bates explica que também Alison e Peter Smithson tiveram de se adaptar a um modo de viver temporário e de algum modo não estável para conseguir habitar o pavilhão. Conceitos como ‘metade construção metade ruína’, ‘poesia áspera’, ‘substância composta por várias partes’ definem este projeto. O muro, a casa e o jardim coexistem incrivelmente entretecidos e dependentes.

Para Peter Smithson este pavilhão pretendia colocar a pessoa humana no centro e considerar o pavilhão como uma raiz. O objeto construído funciona assim como um pano de fundo, um cenário para a vida que aí acontece – o diário que Alison Smithson escreveu a propósito deste pavilhão refere-se sobretudo ao jardim que floresce e se modifica e às atividades dos filhos à volta da casa.

Bates clarifica que o projeto combina dois universos distintos: o detalhe, mais pragmático e a ideia, mais conceptual. A excentricidade maior talvez tenha sido a decisão de reposicionar a casa – o centro do pavilhão passou a ser a parede exterior que continha a chaminé da casa pré-existente. As janelas, da casa que existia, permaneceram no muro intencionalmente e só uma das janelas pertence à casa.

O pavilhão é, assim a concretização de um pensamento em movimento, flexível e aberto. É uma casa maquete, é experimental. Os Smithsons podiam ter decidido simplesmente recuperar as duas casas existentes, mas assim ao resolver demolir, rearranjar, reposicionar, recompor, misturar, aplanar, destapar, tornar acessível, deram início a um novo significado daquele lugar. E a arquitetura faz isso. A arquitetura questiona, reequaciona, é motor para um pensamento que passa a existir e que ainda não tinha sido materializado. O pavilhão é experiência que se acomoda constantemente e que questiona para se afirmar, para se aproximar e relacionar ainda mais com o contexto. Alison e Peter Smithson desejavam viver de acordo com os ciclos da natureza e com a história daquele lugar. O espaço de habitar torna-se assim etéreo, com a verdadeira possibilidade de proteção, de pertença, de abertura e de flexibilidade. 

O Upper Lawn Pavilion está associado à ideia de transição transparente. É uma abertura na matéria que deixa passar o ar, a luz da lua, a luz do sol, as cores, as mudanças e alterações do mundo, a escuridão da noite e o gelo nos vidros. O pavilhão permite o encontro entre o interior e o exterior, aproxima duas realidades instáveis e todos os seus elementos. O espaço privado e íntimo descobre um espaço de escape e de anseio. 

O pavilhão é um intervalo no tempo, no qual algo pode ocorrer. É uma oportunidade para se ver mais claro, enquadra imagens e dá a mostrar eventos que se prolongarão na eternidade. O pavilhão liga o visível ao invisível e é como que um buraco no espaço, uma abertura para a eternidade, uma expansão em contínuo.

O Upper Lawn Pavilion é um elemento fixo que absorve e permite que cada um se relacione com aquilo que nunca está em repouso.

Ana Ruepp

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