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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PÁRA E PENSA

   
    Miguel de Unamuno


O ser humano: 
mistério para si mesmo

A questão que o ser humano é para si mesmo mostra-se paradoxal. Por um lado, é inevitável: o  abismo insuperável entre o que espera e quer ser e o que realmente alcança, obriga-o a perguntar: o que sou?  Que ser é esse que é entre ser e não ser e que nunca é plenamente? Por outro lado, a questão é insolúvel, porque, para conhecer-se, o ser humano precisava de saltar para fora de si em ordem a poder ver-se de fora, objectivamente. Ora, precisamente este salto é impossível.

Depois, o ser humano vive-se a si mesmo em processo e em tensão. E são muitas as suas tensões. Lá está sempre a pulsão e a lógica, a afectividade e o pensamento, o inconsciente e o consciente, a emoção e o cálculo, o impulso e a razão. Aliás, essa tensão inscreve-se  numa base neurofisiológica — há o cérebro que funciona holisticamente, mas com três níveis: o paleocérebro, o cérebro arcaico, reptiliano, o mesocéfalo, o cérebro da afectividade, e o córtex com o neocórtex, em conexão com as capacidades lógico-racionais. Não é sabido, até por experiência própria, que muitas vezes as respostas emocionais escapam ao controlo racional por causa do chamado “atalho neuronal” e do “sequestro emocional”, como mostrou Paul D. Mac Lean? De repente, demos uma resposta a alguém de que depois nos arrependemos,  a pulsão sobrepôs-se à razão…

É verdadeiramente paradoxal a constituição humana. Somos constituídos e vamo-nos constituindo a partir de uma herança genética e de uma história, numa determinada cultura em contacto com tantas culturas. É próprio do ser humano não ter uma natureza fixa e imóvel, porque é histórico e cultural…

Somos afectivos e racionais. Ninguém começa com a inquirição racional do mundo. Primeiro, o ser humano sentiu o mundo e foi afectado por ele, positiva ou negativamente. É muito lentamente que a razão se vai erguendo no seu uso teórico-prático.

O ser humano é situado, sumamente concreto: resulta daquele óvulo fecundado por aquele espermatozóide, naquele instante, e, sempre, com uma história concreta — esta e não outra. Ao mesmo tempo é aberto: ao presente, ao passado e ao futuro, a todos os outros seres humanos, à realidade toda, ao que há e ao que não há, pois é também o ser da utopia e do sonho e do ilimitadamente possível.

Por isso, é único. Nunca houve nem haverá outro como eu. Lá está o grito de Unamuno: “Cada um de nós é único e insubstituível. Não há outro eu no mundo! Não há outro eu! Havê-los-á mais velhos e mais novos, melhores e piores, mas não outro eu. Eu sou algo inteiramente novo. Eu não quero deixar-me classificar, porque eu, Miguel de Unamuno, como qualquer outro homem que aspire à consciência plena, sou espécie única”. Ao mesmo tempo, o ser humano é relacional e, precisamente porque é relação sem limites, aberto a tudo, vem a si mesmo como único, pessoal e comunitário.

Na gigantesca história do universo e da evolução, sabemos que há ser humano, quando aparecem rituais funerários. Como os outros animais, o ser humano também morre, mas, ao contrário dos outros, sabe que é mortal e angustia-se com a morte. É no confronto com a morte que o mistério se adensa. Como é que com a morte se passa de alguém — um eu único — a ninguém, coisa cadavérica que apodrece? Nunca esquecerei como no funeral da minha mãe, quando o caixão descia à cova no cemitério, a minha irmã se agarrou a mim com esta pergunta: “Como é que a gente não enlouquece…” E constituiu para mim um profundo abalo a confissão do grande teólogo José I. González Faus sobre o pai, que lhe transmitiu a fé e que considerava “uma grande personalidade”: “Terminou a sua vida derrotado e duvidando de Deus como quase todos os humanos.”

O ser humano sabe que é finito, mas essa consciência da finitude é-lhe dada na abertura ao Infinito. Esta abertura é condição de possibilidade da consciência do finito enquanto finito. É nela que se enraíza a condição da pergunta religiosa enquanto tal.

O ser humano é festivo e sério, condicionado e livre, é homo sapiens e também homo demens — sapiens sapiens e demens demens (sapiente  sapiente e demente demente). E homo dolens (sofredor) e homo sperans (esperante).

Precisamos de reflectir sobre nós mesmos. Todos os dias, particularmente nestes tempos de agitação constante e barulho sem fim, devíamos consagrar algum tempo à meditação.

É muito interessante a constatação do vínculo entre meditação, medicina e moderação. As três têm como étimo o radical med.-, que dá origem ao verbo latino mederi, que tem o sentido de medir, pensar, curar, restabelecer o equilíbrio. Cá está! É sempre a medida e a justeza que estão em causa. Porque a saúde resulta do equilíbrio e da harmonia. A moderação tem a ver com a medida justa. A meditação é ponderação e pesagem para o equilíbrio harmónico.

Precisamos de viver reconciliados/reconciliadas, em harmonia. Para evitar perigo maior, de que já falava D. António Ferreira Gomes, o famoso bispo do Porto: a agitação paralisante e a paralisia agitante. Com a sequência de uma procissão de indignidades e horrores…


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia 
Sábado, 21 de Março de 2026

Comentário sobre “CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  1. Senhor Professor Anselmo Borges
    Padre e Professor de Filosofia
    Obrigada pela crónica muito objectiva, de onde destaco duas de entre muitas das suas frases:
    “É próprio do ser humano não ter uma natureza fixa e imóvel, porque é histórico e cultural…”
    “O ser humano é situado, sumamente concreto…”
    Para vivermos em harmonia, uns com os outros, não podemos, em Portugal, limitarmo-nos a aceitar Jesus, para já não falar no Catolicismo. E porque, como o Senhor Professor disse, e é demonstrável, cada ser humano é único. Portanto, eu, apesar de católica e de ter obedecido sempre à hierarquia da Igreja, sinto-me profundamente convicta de que sou livre e portanto posso dizer o que vai no meu interior.
    Claro que, sem querer “Ensinar o padre-nosso ao vigário” e historicamente falando, destacar em Portugal, o Cristianismo, o Marianismo, a magia, a bruxaria, a feitiçaria, o ateismo e outras, é tomar a parcela pelo todo. A cultura portuguesa é sincrética devido à herança de povos como os Celtas, Suevos, Árabes… que aqui existiram e se misturaram com os Cristãos. Entretanto, também temos desde os Descobrimentos Portugueses, pessoas que vieram de outras culturas.
    O/a Sagrado/a Feminino/a está enraizado/a na alma do Povo Português, é uma manifestação profunda da espiritualidade popular desde há milénios, muito íntima da terra, da vegetação, da fertilidade, da protecção e do amor.
    Muito antes da chegada do Cristianismo, tínhamos as Mães, Senhoras das colinas, da terra, das águas e da fertilidade, que eram veneradas em grutas, fontes, árvores e elevações naturais. Esta espiritualidade não desapareceu com a cristianização, mas foi integrada em Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe.
    Em relação ao meu ser individual, o facto de ser convictamente Mariana e claro, simultaneamente Cristã, deve-se a dados objetivos, alguns dos quais, publiquei com o mesmo rigor que usei para artigos científicos, estando estes últimos dispersos por revistas científicas internacionais de razoável ou bom fator de impacto (cf. ResearchGate).
    Peço desculpa pela ousadia.

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