De 23 a 29 de março de 2026
Fernando Gil (1937-2006) deixou-nos há vinte anos. Acaba de realizar-se na Fundação Gulbenkian o Colóquio Internacional sobre o seu pensamento, organizado por Filomena Molder, António Marques e Diogo Pires Aurélio. Homenageamo-lo recordando a sua obra-prima “Mimésis e Negação” (INCM, 1984), magistral reflexão sobre: representar, categorizar inventar e conhecer.

Foi na capital francesa que Fernando Gil se doutorou em Filosofia, na Universidade da Sorbonne; depois da licenciatura em Direito em Lisboa. Em 1993, o filósofo recebeu o Prémio Pessoa. Um ano antes tinha sido galardoado como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Fernando Gil tem uma obra vasta, fundamental sobre a atitude filosófica e foi consultor de Mário Soares em Belém, durante dez anos, onde organizou os ciclos Balanço do Século e a Ciência como Cultura; e colaborou ainda com o ministro da Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago.
Fernando Gil é uma referência fundamental da filosofia contemporânea. O seu percurso foi o caminho do século. Em Lourenço Marques teve o encontro inesperado com a “Heterodoxia” de Eduardo Lourenço. Debateu-se com essa reflexão. Mas não o considerou “inimigo ideológico” e sim um companheiro de pensamento. Resistiu, tentou respostas, mas, entendeu que estava muito mais próximo dessas inquietações do que de leituras fechadas e hirtas. E antes do fim da década, pôde reler, com concordância plena: “no plano do conhecer ou no plano do agir, na filosofia ou na política, o homem é uma realidade dividida. O respeito pela sua divisão é Heterodoxia”. Fernando Gil começou pela formação jurídica, mas depois seguiu a sua paixão pela filosofia do conhecimento. Quando em 1984 publicou “Mimésis e Negação”, sua obra-prima, que dedicou à memória de José Marinho – “Mestre de Verdade, que conversava à noite com os anjos e de manhã não acreditava neles”. Fernando identificava-se plenamente com essa atitude. O seu sentido crítico e a sua exigência intelectual levaram-no a considerar os vários lados da realidade, para poder aproximar-se da verdade. “A sensibilidade é o domínio do diverso e o entendimento o domínio do idêntico”. Ao lidar com o conhecimento, soube pôr a tónica na cultura científica e na procura incessante das “provas” e das “evidências”. Por fim, desenvolveu a relação entre a crença e a convicção – do mesmo modo que fez da análise da literatura uma forma de compreender melhor a realidade (num diálogo apaixonante com Helder Macedo). Como disse: “a imaginação é por essência plural e pertence à ideia de conjetura poder ser contrariada por uma outra conjetura; e entender-se-ia assim o princípio quer das adequações, quer (num único gesto) da negação, da controvérsia, do erro, do resto. O realismo comporta tentativas e erros, é o sistema de interpretações que, assintomaticamente se declarará isomorfo do mundo. (…) com a contradição, instala-se, de uma só vez e para todo o sempre, um regime mais forte: um hiato irrecuperável separa a incompatibilidade da pluralidade e da continuidade”.
Na entrevista de vida realizada por Anabela Mota Ribeiro a Fernando Gil, começa-se por recordar uma célebre afirmação irónica de Fernando Pessoa: «Come chocolates, pequena; come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida».
A partir deste excerto do «Tabacaria» do Pessoa, gostaria de falar de inocência e de Filosofia. Uma das palavras associadas à Filosofia é Libertação, e depois de reler esta passagem, não consigo deixar de pensar na leveza de comer chocolates e na tragédia que o saber representa.
A Filosofia é um ato de inocência porque é uma interrogação sobre o que o mundo tem de admirável. Aristóteles, no começo da sua «Metafísica», e numa célebre frase, diz que a Filosofia é espanto. É espanto, e por isso interrogação, e por isso questionamento. A Filosofia não é inocente porque questiona, e é inocente porque faz uma pergunta que é um puro risco e que aparentemente não tem sentido. As coisas, elas próprias, já responderam, porque são o que são, porque são diferentes, porque se dão. Penso que é um ato de inocência fazer-se uma pergunta para que se sabe que nunca pode haver uma resposta, uma resposta boa. Talvez por isso, algo que é misterioso na Filosofia: os filósofos nunca estiveram de acordo uns com os outros, não só nas soluções e nos problemas, mas mesmo no significado da própria Filosofia, sobre o que é filosofar. Sendo a disciplina mais antiga, deveria ter tido já tempo para se normalizar um pouco, para haver um reportório de boas e más perguntas e respostas.
Mais adiante diz Fernando Gil: “Nunca estive inserido em correntes dominantes, e cada vez estou menos, exceto nos primeiros anos de Paris em que o que fazia tinha a ver com Heidegger e com Husserl, sobretudo, e, como toda a gente, interessei-me pelo lacanismo quando ele apareceu. O carácter demasiado não científico, puramente especulativo de toda essa filosofia fez com que deixasse de estar dentro dessa hoste. Então, interessei-me por Wittgenstein e por uma Filosofia de pendor mais rigoroso, mais decidível. (A Filosofia nunca é decidível; em todo o caso, há graus de indecibilidade). A pura especulação sobre o sentido da metafísica ocidental, de tipo heideggeriana, não me interessa, não sei como mover-me dentro desse tipo de pensamento. Na «Flauta Mágica», a certa altura, o Papageno é apresentado ao Tamino, que diz «Ah, é um príncipe»; Papageno responde «É um príncipe? Ah, isso é algo demasiado para mim». Em relação a esse tipo de especulação, é demasiado elevado para mim, também. Não concebo um pensamento que não se obrigue a pôr-se à prova”.
Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença
Obrigada Senhor Professor!
Foi um gosto ler algo sobre o magistral Fernando Gil, incluindo a frase que parafraseou de José Marinho – “Mestre de Verdade, que conversava à noite com os anjos e de manhã não acreditava neles”. Admirei a o seu sentido crítico, a sua exigência intelectual, a tónica na cultura científica e na procura incessante das “provas” e das “evidências”.
Mas em relação à primeira expressão entre aspas, embora eles tenham alguma razão, já Jung dizia que a consciência humana acordava todas as manhãs,… este último autor acrescentava que acordar conscientemente significava integrar as experiências da noite anterior. Sublinho a palavra integrar.
Eu, mínima criatura, não estou de acordo com nenhum daqueles dois primeiros autores, e também não me fico pelos chocolates, preferindo aludir a Papageno «É um príncipe? Ah, isso é algo demasiado para mim».
Foi pena que Fernando Gil tivesse abandonado tão superficialmente o lacanismo, pois que para Lacan o inconsciente podia ser olhado como um código, um produto da cultura, resultante da coevolução/coprodução da cultura e do inconsciente.
E aquele “conversar à noite com os anjos…”, isto é conversar semi-conscientemente, ou ter sonhos ou ainda pesadelos, pode ir tão profundamente quanto a Totem…o que pode ter grandes analogias no mundo atual.
Recordar Fernando Gil é para nós um dever, que gostosamente cumprimos. A obra do mestre aí está para ser lida, estudada e refletida.