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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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“A MENINA DO MAR”

  


A primeira visita de Sophia de Mello Breyner a Teixeira de Pascoaes possui um sentido mítico. Ocorreu doze anos antes da morte do cenobita do Marão. Partindo de Amarante a cavalo, rumou a São João de Gatão, até à casa misteriosa e plena, que muitos de nós conhecemos. Contudo, Sophia perdeu-se entre nevoeiros nos “campos, caminhos e atalhos”, até que finalmente lhe apareceu a casa, de modo surpreendente, “grande, antiga, maravilhosa e branca”. E o espanto deveu-se ao facto de ter lá chegado pelo “lado de trás da casa”. A destemida jovem de então, esperava, como qualquer viajante comum, chegar à entrada brasonada do solar tão celebrado dos Teixeira de Vasconcelos, mas assim não aconteceu. O próprio Pascoaes ao recebê-la surpreendeu-se: “Por este caminho nunca chegou ninguém”. A literatura e o sonho misturam-se, naturalmente. Paisagem e poema tornam-se uma mesma realidade – como tantas vezes afirmou Gonçalo Ribeiro Telles, o paisagista por excelência. “Tudo naquele lugar era igual à poesia de Pascoaes”. E Sophia viu naquele surpreendente desvio um caminho que correspondia exatamente à leitura de um poema. Como diz Carlos Mendes de Sousa: “os textos sobre os poetas e a poesia estão muito próximos dos contos que escreveu, concretamente pelo efeito de surpresa e pela força das imagens, como a espantosa chegada a cavalo à casa de Pascoaes”. Isto, para não esquecer a evocação da descoberta do amigo Ruy Cinatti, a dizer versos sobre a beira de um tanque…

Sophia é um exemplo de amor à língua e à cultura, como essências de uma autêntica educação para as pessoas. Como candidata a deputada, nas campanhas eleitorais, em vez de discursos sobre a democracia e a liberdade, preferia ler poemas – “porque para mim a poesia é a liberdade”. E assim compreendia as pessoas simples do campo e os mais exigentes. “Havia sempre um silêncio especial, mais profundo e mais atento para ouvir poesia”. Por isso, afirmou na revista “Colóquio” que “a poesia é a própria existência das coisas em si, como realidade inteira”. Um dia, convidei Sophia para inaugurar a escola que tem o seu nome em Carnaxide. Respondeu-me, com a amabilidade habitual e a fidalguia que sempre lhe conhecemos, que só aceitaria na condição de alunos e professores da escola prepararem uma representação de cor do conto “A Menina do Mar”. Não calculam a alegria que senti da parte dos membros da comunidade escolar ao conhecerem a disponibilidade da poeta, e poucos dias depois confirmaram que tudo estava combinado e acertado. Mas, cética, Sophia confessou-me: “Dizem-me que se desaprendeu o método de decorar nas escolas, esquecendo-se, etimologicamente, o que é aprender com o coração”. Veio o dia aprazado, entusiasmo total, alunas e alunos, professoras e professores, famílias, grupos cantando mornas e coladeiras, tudo em festa. E a homenageada segredou-me: “Recebem-me como uma rainha” … A inauguração consistiu nesse entusiasmo. No ginásio, em vez de discursos, apenas a presença dos jovens – e de um modo perfeito, numa adaptação adequada, ouvimos, de cor, sem uma dúvida ou hesitação: “Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas”.  Os jovens intérpretes figuravam o enredo. Nadavam e riam o polvo, o caranguejo, o peixe e a menina. Sophia estava surpreendida e feliz. E quando a protagonista disse “Agora a tua terra é o mar” e quando, no epílogo, o Rei do Mar estava sentado no seu trono de nácar, as palmas e os aplausos irromperam espontâneos e Sophia levantou-se com alegria juvenil: “Vejo que a língua e as escolas estão vivas”. Valera a pena o desafio. A educação precisa sempre da liberdade e da exigência.

GOM

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