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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

A VIDA DOS LIVROS

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   De 31 de agosto a 6 de setembro de 2020

 

Os «Escritos do Vintismo (1820-23)» de Almeida Garrett, Editorial Estampa, 1985, permitem-nos encontrar o mestre do Romantismo como grande cicerone da Revolução de 1820.

 

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UMA CONTINUIDADE MARCANTE

Dois séculos de constitucionalismo são motivo de reflexão, menos no tocante aos acontecimentos originais de 1820 e mais quanto à dinâmica criada. Pode dizer-se que a matriz revolucionária sofreu entorses, teve erros e limitações, que as instituições políticas revelariam ao longo do tempo. É natural que assim tenha acontecido, uma vez que a vida pública é sempre uma projeção da sociedade e das suas características. A verdade é que o constitucionalismo tem a virtude de consagrar a aceitação da imperfeição, exigindo, porém, o seu aperfeiçoamento permanente. Lembramo-nos, assim, como Ernesto Melo Antunes, na sua coerência inabalável, em 25 de abril de 1974, colocou o Movimento das Forças Armadas na continuidade da tradição constitucional portuguesa, interrompida no seu curso histórico. E deste modo puderam ser cumpridos, no essencial, os compromissos de normalização constitucional assumidos pelo MFA. Olhando a dimensão cultural da comemoração de 1820, centrar-me-ei no testemunho pessoal e literário de Almeida Garrett, que considero paradigmática – uma vez que nele encontramos o entusiasmo genuíno de quem acreditou nas virtualidades dos valores defendidos pelos regeneradores, temperado pela reflexão crítica e pela experiência pessoal. Alguns porão em dúvida a coerência do poeta, do intelectual e do cidadão, mas o certo é que o seu percurso e a sua evolução de pensamento são perfeitamente compreensíveis porque traduzem o curso da sociedade e das mentalidades. Daí o interesse em podermos acompanhar como o escritor seguiu os acontecimentos, afinando ideias, reflexões e críticas – chegando ao entendimento sobre a necessidade de compromissos sociais e políticos capazes de preservar a identidade pátria e de seguir os movimentos emancipadores centrados na liberdade e nos direitos.

 

O FIM DO ABSOLUTISMO

São conhecidos os antecedentes que mais diretamente suscitaram o movimento revolucionário de 24 de agosto de 1820: o rescaldo das invasões francesas, a perplexidade decorrente da longa ausência da Corte no Brasil, a subalternização das instituições nacionais pelo domínio de facto dos militares ingleses, mesmo depois da derrota dos franceses, o sacrifício ilegítimo e brutal de Gomes Freire e dos “mártires da Pátria” em 1817, além dos ecos da Revolução espanhola de Cádis (1812), da Revolução de Pernambuco (1817), do movimento liberal espanhol de janeiro de 1820 e do juramento da Constituição de Cádis por Fernando VII. É neste contexto que intervem o Sinédrio, na cidade do Porto, com o Desembargador Manuel Fernandes Tomás, José Ferreira Borges, José Silva Carvalho e João Ferreira Viana. Decidido o golpe de Estado, os grupos militares dirigiram-se ao Campo de Santo Ovídio, constituindo-se a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, presidida pelo Brigadeiro António Silveira Pinto da Fonseca, tendo como vice o Coronel Sebastião Drago Brito Cabreira, com a participação, além dos principais membros do Sinédrio, de Frei Francisco de S. Luís (futuro Cardeal Saraiva) e do Coronel Bernardo Correia de Castro e Sepúlveda. Encontramos o jovem Garrett, ainda Silva Leitão, entre 1816 e 1821, estudante da Universidade de Coimbra – manifestando uma clara simpatia pelos ideais do iluminismo enciclopédico fortalecido pela Revolução francesa. É um crítico severo da decadência, da exaustão cultural e do domínio britânico. Lê Rousseau, admira a retórica jacobina, invoca o antigo republicanismo romano, e encontra entre os seus colegas um ambiente favorável à ideia de uma Regeneração revolucionária. De facto, é a Coimbra estudantil um verdadeiro alfobre favorável ao combate ao Antigo Regime. Constituía-se, assim, uma muralha contra o professorado retrógrado, o que levaria o novo reitor após a Revolução de 1820, Frei Francisco de S. Luís, a ter de impor aos docentes o ensino dos novos princípios do Sistema Constitucional. Garrett defendia ardorosamente o espírito novo. O ambiente adensara-se com as notícias da execução injusta e ilegítima dos mártires da Pátria. O futuro poeta afirma-se então como orador inflamado contra a negação do voto à massa estudantil nas eleições paroquiais para deputados; na produção dramática, ataca na farsa “O Corcunda por Amor” os reacionários, numa hilariante trama que é uma floresta de enganos e de ilusões, como no caso da intervenção de Eleutério que, para cair nas boas graças de um lente, diz exatamente o contrário do que pensa – “Isto por cá está cada vez pior. Daqui a pouco não há criados, todos são amos…”; isto enquanto na expressão trágica coloca na boca de Catão a afirmação: “Ou liberdade, ou morte, eis o meu voto”. E, após o herói ter posto termo à vida, diz-se: “Vede Expirar Catão: dentro do peito / Guardai desse romano alma e virtudes”.

 

LIBERDADE E IGUALDADE, MARCOS PATRIÓTICOS

Garrett sente-se imbuído dos ideais clássicos mais intensos e nobres – e em Novembro de 1820, aquando da Martinhada, diz ao Corpo Académico: “Vivamos livres… ou morramos homens”. Mais do que o desenrolar dos acontecimentos políticos, seguimos os passos do jovem poeta que exprime com entusiasmo a força mais pura dos ideais em que a sua geração acredita. Importaria defender uma solução política que favorecesse a liberdade e a justiça. Mas, ao acompanhar o curso das discussões na Assembleia Constituinte, o jovem não esconde o desencanto pela falta de audácia no domínio da Instrução Pública – “tão livre é o povo ilustrado quanto escravo o povo ignorante”, acrescentando: “o povo cuja maioridade seja iluminada, esse povo será livre, porque a pequena porção de ignorantes não basta para servir os que o não são”. De facto, exigia-se pedagogia cívica. Essa era a orientação persistente do futuro autor de “Da Educação”. Se havia nele um impulso genuinamente radical contra a tirania e a idolatria, havia igualmente uma preocupação, que se manifestará pela vida adiante, no sentido do pragmatismo e do primado da lei, de acordo com os apelos que Catão e Mânlio fazem a Bruto contra o seu radicalismo. Daí que a defesa do republicanismo sofra abrandamento, do mesmo modo que a crítica de Rousseau vai dar origem à leitura de Montesquieu e Chateaubriand. A Lei Fundamental deveria ser compromissória, reconhecer a soberania do povo e do seu poder constituinte, assegurar o sufrágio geral, que assegurasse a representatividade popular das Cortes e ser unicameral. Neste último ponto, contudo, a posição garrettiana evoluirá. Depois da Vilafrancada, interrompida a vigência fugaz da Constituição de 1822, o dramaturgo reconhece erros cometidos, desde Cádis, por se dar demasiado à democracia e nada à aristocracia. Reconhecendo a importância da Carta Constitucional de 1826, Garrett vai ser um cidadão empenhado, ativo participante da guerra civil na Regência de D. Pedro, redator dos Decretos da Terceira de Mouzinho da Silveira, constituinte do setembrismo no compromisso de 1838 e defensor do Ato adicional de 1852. Se virmos bem, a coerência garrettiana, apesar das hesitações, culminará na defesa de um constitucionalismo assente no primado da lei e nas legitimidades do voto e do exercício. A Constituição deveria ser, assim, a pedra de toque de um regime justo, promovendo um governo representativo, segurando a majestade do Povo, a liberdade da Nação, os direitos do Trono, as santidade da religião, e o império das leis.

 

Guilherme d’Oliveira Martins

2 comentários sobre “A VIDA DOS LIVROS

  1. O Senhor Mouzinho da Silveira, defensor maior do Rei João VI

    MEMORIA HISTORICA,

    José Xavier Mousinho da Silveira, da herdade da Silveira, do conselho do Sr. rei D. João VI, seu ministro da fazenda ; depois secretario d’Estado da mesma repartição e da justiça, de S. M. I. o Duque regente D. Pedro durante a expedição dos Açores e no cérco do Porto, deputado em côrtes em 1834 e 1840; nasceu em Castello-de-Vide no Alemtejo em 12 de Julho de 1780, morreu em Lisboa em 4 d’Abril de 1849.

    Mandou por testamento que o seu corpo tivesse jazigo na ilha do Corvo nos Açores.

    N’estas palavras simples, escriptas sem nenhum apparato em um papel destinado a viver um dia — mas que Portugal e a sua historia devem gravar n’aquellas tábuas perpétuas que sobrevivem as mesmas nações, está ditta em seus principaes capitulos a existencia toda de um homem distincto, e que decerto foi muito superior a esses improvisados grandes homens vulgares de que a nossa epoca
    abunda.

    (1) Nom. 1808. (2) Nom. 1813.originaes são ainda lembrados, achava-se no anno de 1820 provedor em Portalegre (3).A reputação de intelligencia e probidade que adquiriu no exercicio d’estes cargos, sua instrucção não vulgar, e a conhecida adhesão aos principios då reforma proclamada pela revolução d’aquelle anno, lhe alcançaram muito grande consideração no partido que então regia os negocios publicos, e de cujos membros mais influentes era , além d’isso, amigo pessoal e íntimo.

    Para logo foi chamado á capital, e lhe confiaram o importante logar de administrador geral da alsandega de Lisboa, onde então se requeria um homem de lei, magistrado experiente e consummado, que soubesse e desejasse julgar com acerto nas contínuas e dilliceis pendencias que alli se movem, e que não é para homem leigo, por muito habil e zeloso que seja , decidir sem inconveniente. Juiz entre os interesses do fisco e os dos particulares, fomentador, não vexador do commercio, o chefe d’aquelle vasto estabelecimento não pode ser um mero collector de tributos, um publicano : é tambem um magistrado protector do commercio , da navegação e da indústria nacional.

    Assim intendia, e assim exercia Mousinho o seu cargo: c nada perdeu o fisco, antes ganhou immensa -mente com a sua liberal administração, que fez render mais a alfandega de Lisboa do que ha muitos annos não produzia.

    Absorvido por éstas graves occupações, não tomou parte nas contendas politicas em que tudo então servia ; antes , seu espirito recto e eminentemente práctico, naturalmente fugia d’aquellas supremas questões de theoria, d’aquellas lactas dogmaticas em que a revolução se gastava, tripudiando, para assim dizer , em tòrno da árvore dos preconceitos e dos abusos’, que medraya e robustecia mais com esses tripudios’, em

    Bons defensores da verdade, pela liberdade e direito da sucessão, ainda existem bons homens que irão respeitar a nossa Pátria.

    No seu texto Senhor Guilherme d’Oliveira Martins, falta mencionar muitos Franceses, Austríacos e Ingleses que vieram ajudar contra o Napoleão a defender o Reino de Portugal, nessa altura não existiam forças militares que fizessem frente, a Napoleão e aos Bourbons e Orleans, estes tomaram a Bastilha e vieram tomar Portugal.

    João Felgar

  2. Charles Louis Prince Royal de Hongrie et de Bohème et Archiduc d’Autriche et Chevalier de l’Ordre de la Toison d’Or, Grand Croix de l’ordre Militaire de Marie-Thérèse, Général feld maréchal de l’Empire, feld zeug meister impérial et royal, propriétaire d’un Régiment d’Infanterie et d’une Légion, Commandant Général en Chef des Armées Impériales et Royales sur le Rhin, certifions par la présente que le Chevalier de Miremont a servi dans le Corps de Génie de l’armée impériale en qualité de capitaine durant toute la guerre contre la France d’une manière si distinguée que Son Excellence le Commandant feld maréchal, comte de Clerfait et son Altesse Royale l’ Archiduc Charles lui-même en ont rendu d’honorables témoignages auprès des autorités en preuves de leur satisfaction et l’ont recommandé d’une manière particulière. Comme le susdit a manifesté le désir de quitter le service et d’entrer dans un autre, nous nous empressons de lui accorder sa démission à sa prière et lui délivrons an même temps le présent certificat. En foi de quoi nous avons signé de notre propre main et apposé notre sceau archiducal, fait à notre quartier général à Doulac (?), le 24 avril 1797. Signé en l’absence de S.A.I.R. l’archiduc Charles, commandant en chef, le feld maréchal de l’empire, comte Baillet de la Tour, feld zeug meister.

    Avec quelques autres officiers dont son frère aîné Antoine, il part pour le Portugal, accompagnant le prince de Waldeck chargé de réorganiser l’armée portugaise.

    “Brevet de Major de Sa Majesté très fidèle, Dona Maria par la grâce de Dieu, Reine du Portugal et des Algarves, deçà et delà des Mers en Afrique, seigneur de la Guinée, Conquêtes, Navigation et Commerce de l’Ethiopie, Arabie, Perse et de l’Inde, etc… Donné à Lisbonne le vingt cinq du mois d’août de l’année de la naissance de N.S. Jésus Christ mil sept cent quatre vingt dix sept
    “Signé: le Prince, le Duc d’Alafcens, Maréchal Général adjoint à la Royale Personne, le Marquis das Minas, le comte d’Aveyras.

    Le prince de Waldeck étant mort peu après leur arrivée au Portugal Philippe-Paul de Tessières et Jean-Baptiste de Blumenstein adressent une requête au Ministre de la Guerre du Portugal:

    “Le lieutenant-colonel, baron de Blumenstein et le major chevalier de Miremont isolés au Portugal où par la mort de Prince de Waldeck, ils ont perdu la seule personne dont ils fussent connus, supplient son Excellence le Ministre de la Guerre de permettre qu’ils mettent sous ses yeux un tableau raccourci de leurs services pendant la dernière guerre pour qu’elle voie quel degré de confiance ils avaient acquis dans l’armée qu’ils ont quitté pour venir au Portugal et qu’elle juge par l’espèce de fonctions qu’ils y ont exercées celles dont ils pourraient être chargés ici.

    De 1800 à 1802, il est à l’Etat-major du Général Marquis d’Alorna, commandant du Corps de la province de Beira, chargé des fortifications à la frontière de la province. Il quitte le Portugal en octobre 1802 avec une permission de 2 ans; J.B François de Blumenstein avait quitté le Portugal pour une permission de durée non limitée, le 27 mars 1802.

    “Permission accordée au Major Chevalier de Miremont. François de Silva Tello menèzes Cour Royal, comte d’Aveyras, conseiller de guerre du Prince Régent, notre Seigneur Grand Croix de l’Ordre de St.Benoit d’Avis, général d’artillerie, commandant les troupes de la cour et de la province d’Estramadure, grand écuyer de la princesse Dona Maria Françoise Benoîte … fait savoir que le major agrégé à l’état-major de la cour, Philippe Paul de Teyssière chevalier de Miremont, a obtenu du prince régent, notre seigneur, deux années de permission avec ses appointements pour aller dans sa patrie s’occuper de ses affaires particulières et pour l’exécution d’icelle, je lui ai expédié la présente que j’ai signée et scellée de mes armes. Fait au quartier général de la Junquiera, le 6 octobre 1802;
    Signé: le comte d’Aveyras.

    Sem estes Senhores, que eram família ao Rei de Portugal que vieram apoia lo, existem muitos mais, não são relembrados, para existir o Rei João VI, muitos destes primos de Schonenberg, Miremont, Tessieries, François Kayr de Blumenstein était né à Salzbourg en Autriche, deram a vida.

    João Felgar

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