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O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

A VIDA DOS LIVROS

  
De 22 a 28 de julho de 2024


«Pessoa Revisitado» de Eduardo Lourenço constitui uma obra referencial do grande ensaísta, que acaba de ser reeditada pela Gradiva e constitui uma sugestão essencial de leitura para este Verão.


PEÇA-CHAVE 
O reconhecimento da genialidade de Pessoa é uma marca indelével que encontramos na obra que aqui se apresenta. Pessoa Revisitado – Leitura Estruturante do Drama em Gente constitui uma peça-chave na obra de Eduardo Lourenço, da qual resulta a ideia inovadora e original de que os heterónimos pessoanos não são fragmentos de um puzzle, cuja coerência o leitor poderia reconstituir com referência a alguma instância exterior à obra, mas sim à fragmentação de uma totalidade identificada na poesia do próprio Fernando Pessoa, ainda antes do nascimento de Caeiro, Campos e Reis, como tem salientado Pedro Sepúlveda (in Obras Completas, IX, Pessoa Revisitado – Crítica Pessoana – I (1949-1982)- Fundação Calouste Gulbenkian, Introdução, pp. 13 e ss.).

Nesse sentido, a famosa questão da génese dos heterónimos passa a ser colocada no plano textual, com uma perspetiva orgânica, partindo de uma ideia não só de rutura, mas também de continuidade, no tocante a motivos e temas, ligando os textos heteronímicos entre si e a uma fase anterior. E o percurso desenhado por Richard Zenith na sua biografia de Pessoa ilustra bem esta ligação. É assim que se compreende que Eduardo Lourenço tenha a preocupação de tornar claro que se demarca de uma visão psicologista na interpretação da personalidade poética de Pessoa. Para si a psicanálise é mítica, centrada no texto e não no sujeito criador dele. E Robert Bréchon afirma que Pessoa Revisitado devolve à poesia pessoana o seu poder de subversão. Há, deste modo em Eduardo Lourenço, uma redescoberta de Pessoa, que o Livro do Desassossego irá confirmar, numa coerência e num sentido de conjunto, que Eduardo Lourenço intuiu de forma pioneira magistralmente.

Aproximando-se de Adolfo Casais Monteiro ou de Maria Aliete Galhoz, o ensaísta considera que na obra policêntrica estamos perante um sistema de múltiplos sentidos, que corresponde a um todo. De facto, a aparente multiplicidade e o seu carácter supostamente contraditório da obra plural correspondem a uma impressão de totalidade. E neste ponto a referência Walt Whitman merece especial atenção.  Tradicionalmente apontado como influenciador do mestre Alberto Caeiro, verifica-se que essa prevalência é muito superior ao que se possa supor, sendo transversal a toda a criação, transformando-se em imaginário refúgio contra o sentimento de irrealidade. Aliás, a descoberta do volume Poems by Walt Whitman na Biblioteca particular de Pessoa, profusamente anotada, com a assinatura de Alexander Search, numa fase pré-heteronímica, demonstra o acerto da intuição lourenciana.


LIVRO POLÉMICO E DE URGÊNCIA
Pessoa Revisitado é, sem dúvida, para o seu autor um “livro polémico, veemente, livro de urgência” e até de paixão. E Pedro Sepúlveda tem razão ao considerar Pessoa Revisitado como, “até hoje o mais importante ensaio escrito sobre a obra de Fernando Pessoa”, pela originalidade e pela atenção inovadora. Afinal, como o mesmo considera, invocando o testemunho do próprio Lourenço: «Tal como em Caeiro, a forma de poesia de Campos teria como referência primordial Whitman, mediada pela influência do mestre, apresentando-se como “transfigurado eco da visão que Walt Whitman tem das coisas, não do concreto hino com que as canta”» (Op. Cit., p. 31). E o poeta norte-americano constitui uma chave reveladora do que se torna próprio e irrepetível na genial criatividade de Fernando Pessoa, ele mesmo.

Como o ensaísta reconhece, estamos diante de “um livro de paixão, um romance de romancista imaginário por conta de Pessoa, antes que autênticos romancistas o convertessem na ponte das suas criações” (Vinte Anos Depois). Eis o que nos obriga a esta leitura apaixonante.


UMA PREMONIÇÃO 
Como disse Eduardo Lourenço: “o canto pessoano é o do terror instalado no centro do amor, fazendo sobre-humanos esforços para não sucumbir ao seu negro sortilégio. A relação da humanidade com o seu desejo não é, nem pode ser natural. Porque foi e é através das formas que assumiu e assume que ela se liberta sem cessar da Natureza e se instala na sobrenaturalidade, onde não acabará jamais de se instalar”. Carlos de Oliveira viu bem quando afirmou que este foi o grande romance que Eduardo Lourenço, afinal, escreveu. E assim o leitor insaciável, o estudioso permanente, o cultor da linguagem poética reveladora do sentido profundo dos mitos surge aqui como revelador do sentido da criação cultural de Pessoa. Não mais poderemos compreender o alcance de «Orpheu» sem lermos esta obra. E o certo, porém é que o próprio autor talvez não se tenha apercebido, quando fechou o seu ensaio, que a descoberta do Livro do Desassossego viria a dar plena razão à coerência complexa e à genialidade do autor plural que demonstrou na modernidade uma coerência única entre a personalidade multímoda e a sua obra portentosa, assente no surpreendente diálogo entre a diversidade de ortónimos e heterónimos…     


Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

2 comentários sobre “A VIDA DOS LIVROS

  1. Será sim “uma leitura apaixonante”. Tanto gosto muito de Eduardo Lourenço como de Fernando Pessoa. Também acho que “os heterónimos pessoanos não são fragmentos de um puzzle”, antes a forma natural que ele encontrou para arrumar os seus pensamentos, tal e qual como nós podemos guardar livros sobre um assunto numa prateleira, outro assunto noutra e assim sucessivamente, mas bem sabemos o que temos em todas as prateleiras e temos o todo sempre presente, de forma que quando queremos vamos direto à prateleira correta. Estou absolutamente convicta que essa criação de heterónimos não tem nada a ver com a defesa da “desintegração do eu”, como já vi escrito. Pelo contrário, ele conhecia-se muito bem a si próprio:
    “Sou um guardador de rebanhos
    Sou um guardador de rebanhos.
    O rebanho é os meus pensamentos

    Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
    Sei a verdade e sou feliz”
    Alberto Caeiro era bucólico, valorizava a simplicidade e o que sentia, e até o relativo paganismo, a meu ver, era coincidente com o da população portuguesa, apesar da sua conhecida influência americana. Também em Portugal, as pessoas eram simultaneamente pagãs e católicas.
    Em relação à frase “…Porque foi e é através das formas que assumiu e assume que ela se liberta sem cessar da Natureza e se instala na sobrenaturalidade, onde não acabará jamais de se instalar” parece-me, pelo menos a mim, que traduz uma ideia que não é completamente nova. Em 1954, Mirceia Eliade dizia “..segue-se daí que o homem vive já cá em baixo, sobre a terra, uma vida que não pertence à Terra…”

    1. Foi, de facto, Eduardo Lourenço quem pôde compreender Fernando Pessoa para além da “Mensagem” e dos biógrafos tradicionais. Quando hoje lemos Richard Zenith no seu monumental “Pessoa”, compreendemos que Lourenço foi o verdadeiro pioneiro. Este verdeiro romance revela-nos a genialidade pessoana e aí está a verdadeira descoberta!

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