De 11 a 17 de agosto de 2025
“Diário da Ucrânia – Ali está o Taras Shevchenko com um Tiro na Cabeça” de Ana França (Tinta da China, 2023) é um relato impressionante e apaixonante do início da invasão russa, que infelizmente continua. Como terminará?

Conhecemos a Ucrânia e a sua história. Nesta “Vida dos Livros” recordámos a biografia de Taras Shevchenko (1814-1861), símbolo da Ucrânia Independente, poeta, pintor, desenhador, artista e humanista – fundador da Literatura moderna ucraniana. Esse texto data de 2019, na sequência da Revolução da Dignidade, que teve início nas violentas manifestações de protesto conhecidas como Euromaidan contra o Presidente Viktor Yanukovych, que deram lugar à deposição deste. Este diário permite-nos revisitar a saga deste povo, cuja independência resulta de acontecimentos marcantes que devem ser lembrados. Raquel Vaz-Pinto no Prefácio dá-nos as razões para lembrarmos os acontecimentos recentes e para concluir que a narrativa oficial russa de Putin é errónea e baseia-se na tentativa de adulteração da História. Ana França relatou para o Expresso a invasão da Ucrânia de 2022. Nos primeiros contactos que tive com a Ucrânia não encontrei uma tão evidente consciência nacional como agora. Havia os russófilos e os europeístas, consoante sobretudo estivessem na zona oriental ou na zona do centro-oeste. Mas a invasão russa de 2022 teve uma consequência mobilizadora, pois os ucranianos viram o seu lar invadido e a sua liberdade e autonomia postas em causa.
Com uma longa história, Kiev ou Kyiv, capital da Ucrânia, é uma das cidades mais antigas e com maior riqueza histórica da Europa Oriental, tendo passado por diversas fases de notoriedade e de decadência. Ucrânia significa, por isso, fronteira. A urbe foi fundada pelo menos no século V da nossa era, como um entreposto comercial, tendo ganho progressivamente importância, a ponto de se tornar o centro da civilização eslava oriental, até passar a ser a capital política e cultural entre os séculos X e XII. Importa lembrar que a Igreja Ortodoxa Russa se afirmou com especial intensidade no século IX em Kiev, lugar onde, segundo a tradição, Santo André teria profetizado a criação de uma grande e influente cidade cristã. A idade de ouro ucraniana correspondeu, assim, aos anos 800 a 1100. Tratou-se do reinado de Vladimir, o Grande, que levou o Estado eslavo no sentido do cristianismo bizantino. Daí que o nascimento da Terceira Roma tenha tido as suas raízes em Kiev, ainda que, com a queda de Constantinopla (1453), Moscovo se tenha afirmado como sucessora de Roma, em virtude de Kiev estar numa fase de subalternização. De facto, Kiev foi completamente destruída pelos mongóis em 1240, tendo então perdido grande parte de sua influência. Tornou-se então uma capital de província de relevância limitada na periferia dos territórios controlados por vizinhos mais poderosos: o Grão-Ducado da Lituânia, a Polónia e a Rússia. Em meados do século XVII o quase Estado cossaco em Zaporíjia foi formado por habitantes do Dniepre e por rutenos fugidos do domínio polaco. E assim os cossacos tornaram-se uma força opositora útil contra os turcos otomanos e os tártaros da Crimeia. Nas partilhas da Polónia do final do século XVIII, entre a Prússia, Áustria e Rússia, o território ucraniano foi dividido entre o Imperio Austríaco (a província da Galícia) e o Império Russo (parte oriental). Entre 1853 e 1856 teve lugar a Guerra da Crimeia que envolveu o Império Russo contra a aliança composta pelo Império Otomano, França, Reino Unido e Reino da Sardenha. Finda a guerra o Czar Alexandre II reconheceu-se derrotado, aceitando um conjunto de limitações estratégicas no Mar Negro, que viria a recuperar.
A cidade apenas voltou a prosperar com os primeiros sinais da revolução industrial russa no final do século XIX. Após o período turbulento que se seguiu à Revolução Russa de 1917, Kiev passou a ser uma cidade importante da República da Soviética da Ucrânia e, a partir de 1934, sua capital. Durante a Segunda Grande Guerra, Kiev voltou a sofrer danos pesados, mas recuperou no pós-guerra, continuando a ser a terceira maior cidade da Federação Russa. Em 1932-33 teve lugar a grande fome de Holodomor, com cerca de 10 milhões de ucranianos mortos, como penalização imposta pelo regime soviético contra a resistência popular. Em 24 de outubro de 1945, a Ucrânia foi aceite como membro das Nações Unidas com a Belarus, conseguindo assim o então bloco soviético três votos formais. Com o colapso da União Soviética e a independência real da Ucrânia em 1991, Kiev manteve-se como capital do país, recuperando importância. No território ucraniano tinha tido lugar o trágico acidente nuclear de Chernobil em abril de 1986 com um número incerto de vítimas. Em 2004 teria lugar a Revolução Laranja de orientação democrática que trouxe ao poder Viktor Yushchenko e Yulia Tymoshenko. O confronto com a Rússia a propósito da escassez do fornecimento de gás em 2006, abriria nova crise que culminaria com a eleição do pró-russo Viktor Yanukovych como Presidente (2010). Face à recusa deste em assumir uma orientação favorável a uma aproximação à União Europeia, abriu-se uma forte contestação popular, é o Euromaidan (novembro de 2013) que culminaria com a destituição de Yanukovych pelo parlamento, após os tumultos sangrentos. Em março de 2014, a Rússia anexa a Crimeia. Em maio foi eleito Petro Poroshenko, que viria a assinar os acordos de Minsk (2014-15) que marcaram o fim temporário da Guerra em Donbas contra as forças separatistas pró-russas em Donetsk e Luhansk. Poroshenko não foi reeleito em 2019, perante a vitória esmagadora de Volodymir Zelensky.
Apesar de diversas tentativas ucranianas no sentido de evitar o agravamento do conflito, Putin anunciou a 24 de fevereiro de 2022 uma operação militar especial no Donbas. Misseis russos atingiram vários alvos militares na Ucrânia e Zelensky declarou a lei marcial. “Sabíamos que a Rússia podia tentar atacar e conquistar mais território, mas estamos perante uma tentativa de anexação, pura e dura”. Há assim uma operação de conquista, que passa por derrubar o poder legítimo em Kiev. O Presidente Zelensky sobrevive a três tentativas de assassinato: duas perpetradas pelo Grupo Wagner e uma pelo Kadyrovtsy. Putin esperava uma ação rápida com rendição do governo ucraniano e mesmo os serviços secretos norte-americanos previam uma ação relâmpago de 96 horas… Pelo contrário, Zelensky resiste. “Porque realmente há momentos que mudam um povo inteiro, que oferecem uma luz comum a todos, e para nós esse momento chegou, ninguém sai da linha” – diz um dos ucranianos retratado no livro. Aqui encontramos uma guerra relatada a quente. Cada um dos locais da cidade torna-se quimérico. O Mosteiro das Cúpulas Douradas de S. Miguel lembra mil anos de vida e em dezembro de 2013 Ivan Sydor coordenou o bater dos pêndulos da uma às cinco da manhã sem parar. Desde a invasão dos mongóis que os sinos não dobravam durante tanto tempo. Quase 800 anos depois, 130 pessoas morreram, incluindo polícias, nestas mesmas ruas. “Não há outra capital no mundo onde se tenha morrido pelo desejo de pertencer à União Europeia, que me lembre”. Algures Ana França pode dizer: “Ali está o Taras Shevchenko com um tiro na cabeça. Pode ter sido fogo cruzado, até fogo amigo, mas o busto de Taras Shevchenko, um poeta tão importante que até se mudou o nome de uma rua nova-iorquina, em 1978, no bairro dos ucranianos, em sua honra, tem um tiro do lado esquerdo da testa, de quem olha de frente para a estátua, na Praça Central de Borodyanka”… Este livro é um antídoto indispensável ao “lodaçal de propaganda” que por aí anda…
Guilherme d’Oliveira Martins