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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

A VIDA DOS LIVROS, por Guilherme d’ Oliveira Martins

(de 1 a 7 de Dezembro de 2008)  

 

Sob um Falso Nome” de Cristina Campo (Assírio e Alvim, 2008) é formado por diversos ensaios sobre temas muito diversos, unidos por um fio condutor que tem a ver com “uma atenta leitura da realidade e da arte”, isto é, “uma leitura total, em planos múltiplos: poético, humano, espiritual, religioso e simbólico”. Com esta obra, servida por uma muito boa tradução de Armando Silva Carvalho, podemos ter novo contacto com a autora de “Os Imperdoáveis”, livro também publicado na colecção “Teofanias”, biblioteca deslumbrante, que agora nos traz mais este tesouro. Os ensaios abordam, sempre com brilhantismo e profundo sentido poético, desde a liturgia cristã a Truman Capote, passando por Simone Weil, Djuna Barnes, Virgínia Wolf, Katherine Mainsfield, Jorge Luís Borges, D’Annunzio e Shakespeare. E a cada passo sentimos a densidade espiritual e a capacidade de encantamento que a escrita de Cristina Campo sempre contém. 

 

VITTORIA GUERRINI (1923-1977) nasceu em Bolonha e morreu em Roma. Adoptou o pseudónimo de Cristina Campo para assinar a sua poesia. Cristina, de “portadora de Cristo”, e Campo, “numa referência aos campos de concentração, característica dramática do nosso tempo, “campos de dor”, segundo a sua própria expressão. Cultora entusiasta da literatura, traduziu e comentou desde Homero a Hölderlin, passando, entre outros, pelos Padres do Deserto, por S. João da Cruz, Proust, Emily Dickinson, Djuna Barnes, Katherine Mansfield, William Carlos Williams e por Simone Weil. Dir-se-ia que Cristina Campo busca na literatura a chave para muitos dos enigmas a que procura incessantemente responder – com a sociedade em que se integra. Mário Luzi, que ofereceu a Vittoria o primeiro texto de Simone Weil, fala, aliás, de um vasto território comum à iluminação poética e religiosa. Em 1953 prepara a antologia, que nunca seria publicada, “Il Livro delle 80 poetesse” (obra ambiciosa, que pretendia ser “uma recolha nunca tentada até agora das mais puras páginas escritas por mãos femininas através dos tempos”). Em 1956 vem a lume o primeiro livro de poesia, “O Passo do Adeus” (traduzido em português), e a partir de 1960, depois do contacto com Elémire Zolla, inicia uma fase mística e de especial interesse pela temática religiosa. O tema da liturgia entusiasmou Cristina Campo, como sinal de glorificação e encontro do mistério com a humanidade. É por isso que afirma: “A complexidade do gesto de Madalena (a unção de Betânia) (…) faz com que algo de litúrgico se torne de certo modo sacramental. Mas podemos recordar, ainda antes do seu gesto, aquele não menos inefável, ainda que mais simples, dos sapientíssimos Magos. Os quais, partindo em busca de um menino necessitado de tudo, não lhe levaram leite nem vestuário, mas as insígnias da Sua tríplice dignidade de Profeta, de Sacerdote e de Rei”. Afinal, o próprio Deus, apesar de ter encarnado numa criança pobre, não dispensa a celebração simbólica da sua glória, representada pela liturgia. De um modo muito claro e simples, a escritora liga, assim, o sagrado e o simbólico, o espírito e a poesia – longe de qualquer ostentação ou pretensiosismo, mas de olhos postos numa dignidade perene. “Todo o homem que produz um acto livre projecta a sua personalidade no infinito” – como disse Léon Bloy, a propósito do mistério da Reversibilidade, que é o nome filosófico da Comunhão dos Santos. “Um movimento de piedade canta por ele os louvores divinos… cuida dos enfermos, consola os desesperados, aplaca as tempestades, resgata os maus, converte os infiéis e protege o género humano”. Mas se é assim para os movimentos de piedade, é o inverso para a hipocrisia e a falsidade… E, segundo um anónimo do Monte Athos, citado numa das epígrafes de um dos textos publicados, o objectivo da filosofia deveria consistir na manutenção imperturbável da união com o divino amor e a paz…

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Guilherme d’ Oliveira Martins

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