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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

A VIDA DOS LIVROS, por Guilherme d’ Oliveira Martins

(de 15 a 21 de Dezembro de 2008)  

 

"A Cor dos Dias – Memórias e Peregrinações" de António Alçada Baptista (Presença, 2003) merece ser relido nestes dias em que sentimos a necessidade de falar de “um sussurro de saudade”, como ele sentiu na morte do seu grande amigo Alexandre O’Neill. Neste livro, deparamo-nos com memórias, reflexões, invocações e ensaios que prosseguem aquilo a que António Alçada Baptista nos habituou. Aqui se sente a continuação da “Peregrinação Interior” e também a explicação de como o “escritor dos afectos” foi muito mais do que isso – foi o cristão no tempo, pondo as palavras ao serviço do amor das bem-aventuranças e de um sentido profético da vida. 

 

A GENEROSIDADE GENUÍNA

Ao longo das páginas deste livro memorialista, sente-se que, longe de querer uma carreira ou de querer afirmar-se politicamente, AAB quis agir, na dicotomia de Péguy, no pólo profético, mais do que no lado político. Mas, sabendo que o campo político é o que influencia o dia a dia, não se alheou dele. Se quisesse ter tido sucesso político teria tido muito boas oportunidades. E nem se fale da sua amizade com Marcelo Caetano, que nunca limitou no que quer que fosse a sua liberdade de espírito. Para quem o conheceu e ouviu da sua boca o que pensava e o que sentia, o que esteve em causa no seu trajecto liga-se a três preocupações fundamentais: a necessidade de contribuir para uma abertura necessária na sociedade portuguesa, para pô-la a viver ao ritmo da Europa e do mundo civilizado; a consciência de que para um católico isso teria de começar pela intervenção dos crentes, num momento em que os “sinais dos tempos” apontavam para o que viria a ser o “aggiornamento” (que o Concílio viria a concretizar); e colocando os temas da liberdade pessoal, da dignidade humana e do amor cristão na ordem do dia como essenciais na sociedade moderna. Daí as suas preocupações e prioridades: “Se me perguntarem o que hoje me preocupa tenho que dizer que, para lá do lisboeta e do provinciano, surgiu um novo português que não sei como lhe chamar. Ele tem a idade dos frigoríficos, dos sistemas de crédito, do automóvel para cada um, da segurança social, da reivindicação de melhores salários. É gente que se está nas tintas para a história de Portugal e há certas palavras que estão fora do seu vocabulário como ‘deveres’, ‘valores’, ‘aspirações éticas’, ‘destino’, e certas coisas que eram acarinhadas e que até se podiam chamar lendas ou mitos, mas que davam um certo estofo à maneira como as pessoas se comportavam, tudo isso saiu de circulação”. Entre o ressentimento dos oprimidos e o sentimento de culpa dos privilegiados, António Alçada Baptista propõe, em nome de uma “aristocracia do comportamento”, que o poder e o dinheiro deixem de ser os bezerros de ouro do tempo presente. E, com uma actualidade extraordinária, cita o seu amigo Millôr Fernandes: “A economia compreende toda a actividade do mundo. Nenhuma actividade do mundo compreende a economia”. E nota: “A economia (…) deixou de ter qualquer relação com a realidade para se passar por dentro da cabeça dos economistas que resolvem as grandes crises financeiras à mesa dos seus gabinetes”. E o escritor acusa o domínio da ilusão e do virtual, com as consequências que sentimos actualmente (bem evidentes na “célebre história da não-criação de porcos”). 

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Guilherme d’ Oliveira Martins

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2 comentários sobre “A VIDA DOS LIVROS, por Guilherme d’ Oliveira Martins

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