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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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ABDICO-ME?…

 

Minha Princesa de mim:

 

Isso de abdicação invoca sempre, na nebulosa da nossa mente, uma referência ao sagrado. Na práctica, politicamente falando, abdicar é simplesmente resignar ou renunciar a um cargo, ao seu título e exercício. Mas na memória clássica, sente-se mais do que isso. O verbo latino dico, dicas, dicare, dicavi, dicatum significa proclamar, consagrar. Tem um cunho forte de solenidade. Quando se lhe antepõe o prefixo ab, que significa afastamento, quer-se dizer um acto de apostasia ou profanação: quem foi proclamado sagrado, o consagrado, agora  –  por gesto que, livre ou forçado, só pode ser seu  –  declara a sua vontade de ser reduzido à condição comum. Só o perceberemos, se nos lembrarmos de que eram divinos os imperadores romanos, e de que, na nossa Europa, se procedia à sagração dos nossos reis, que o eram por direito divino. Talvez por isso, ainda hoje qualquer anúncio de abdicação suscita reacções diversas e exacerba sentimentos e opiniões… E qualquer pessoa sabe que se pode demitir ou depor soberanos e presidentes, mas que só o próprio pode, ele mesmo, abdicar. Ninguém abdica outrem. Nos seus Essais, Michel de Montaigne fala da abdicação do imperador Diocleciano,  no capítulo XLII do livro I, onde trata de L´inegualité qui est entre nous. A dado passo, conta que, certo dia, os cortesãos louvavam o Imperador Juliano por fazer boa justiça: «Orgulhar-me-ia com agrado, disse ele, desses louvores, se viessem de pessoas que ousassem acusar ou censurar as minhas acções contrárias, quando elas o fossem»…   … Os Príncipes não têm, nem sono nem apetite diferentes dos nossos: o seu aço não é de melhor têmpera do que aquele com que nos armamos; a sua coroa não os protege, nem do sol nem da chuva. Diocleciano, que tinha uma, tão venerada e afortunada, resignou-a para se retirar ao prazer de uma vida privada. E, pouco tempo depois, quando a necessidade dos negócios públicos requeria o seu regresso ao cargo, respondeu aos que o reclamavam: «Não tentaríeis persuadir-me disso se vísseis as belas árvores que plantei em minha casa e os belos melões que lá semeei!» E, mais adiante, Montaigne evoca as questões de Cíneas a Pirro, quando este lhe confidencia que quer invadir a Itália: para quê? e depois? Depois seria a Gália e Espanha e África e o mundo todo, e finalmente, com tudo conquistado, Pirro descansaria à vontade… «Por Deus, Senhor, dizei-me o que vos impede de entrar já nesse descanso? Porque não vos arrumais desde já, para poupardes tanto trabalho e incerteza?» 

      Nimirum quia non bene norat quo esset habendi

      Finis, et omnino quoad crescat vera voluptas.

      ( Talvez porque o homem não conheça bem os limites da posse, nem até onde cresce o verdadeiro prazer)

      E vou encerrar este passo com um versículo antigo, que acho que aqui cai muito bem:

      Mores cuique sui fingunt fortunam…

      ( Os nossos costumes forjam o nosso fado).

No capítulo VIII ( De l´affection des peres aux enfants) do Livro II dos mesmos Essais, o pensador gascão se refere à abdicação do imperador Carlos V, ao qual sucederia o filho que tivera de sua mulher, Isabel de Portugal: Filipe, o segundo de Espanha, o primeiro de Portugal: Um pai, carregado de anos e de males, privado, pela sua fraqueza e falta de saúde, da comum sociedade dos homens, prejudica-se, e aos seus, se chocar inutilmente um amontoado de riquezas. Se for sábio, estará em estado de desejar despojar-se, para se ir deitar, não só até à camisa, mas até ficar só com um pijama quentinho. Do resto das pompas, das quais mais nada tem a fazer, deverá, de boa vontade, alhear-se em favor daqueles a quem, pela ordem natural, elas devem pertencer. Seja mais por razão que lhes deixe o uso delas, do que por delas o privar a natureza: de outro modo, haverá malícia e inveja. A mais bela das acções do Imperador Carlos V foi a tal de, imitando outros do seu calibre, ter sabido reconhecer  que a razão nos recomenda bastante despirmo-nos, quando nos pesam e atrapalham as nossas vestes, e irmo-nos deitar, quando nos falham as pernas. Resignou em seu filho os seus meios, grandeza e poderio, logo que sentiu falhar em si a firmeza e a força para conduzir os negócios, com a glória que tinha adquirido.

      Sole senescentem mature sanus equum,ne

      Peccet ad extremum ridendus, et ilia ducat.

      (Sábio, desatrela a tempo o teu cavalo envelhecido, antes que ridiculamente te empurre…).

Vem caindo a noite, mais uma de tantas que vi na vida. Assim se apaga este dia, o meu e o de todos que, neste momento, se encontram neste ponto de uma Terra que vai girando. Nada disto é já notícia. Acontece, simplesmente. Haverá certamente amanhã, nenhum de nós sabe se lhe saudará o amanhecer. Mas talvez já o ame, pelo gosto da luz do sol. E nesta hora em que tanto gosto de te dizer aconchego-me-te, ocorre-me que tudo será ou poderá parecer coisa deste mundo, profano e noticiável. Tudo muito parecido, classificável em nomenclaturas várias, apreciável pelo gosto ou anti-gosto das nossas empatias. Mas, em cada um de nós, nessa secreta habitação que, quiçá, só com Deus partilhamos, constantemente vibra, no nosso único, inalienável, pensarsentir, essa ansiedade: quem sou, donde venho, para onde vou? Deixo-te, Princesa, uma mão cheia de perguntas. E um sorriso, que é a coisa mais linda que podemos dar…

 

             Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira 

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