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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A força do ato criador

Natureza-Arte-Corpo.

Alberto Carneiro e O Canavial – memória/metamorfose de um corpo ausente (1968)

 

‘A natureza sonha nos meus olhos desde a infância’, Alberto Carneiro, Das Notas para Um Diário, 1965

 

Alberto Carneiro (1937) de 1947 a 1958 trabalhou nas tecnologias da madeira, da pedra e do marfim, nas oficinas de arte religiosa no Coronado. A partir desta experiência, entendeu que o domínio dos materiais naturais é conseguido pela agregação do corpo e pela agregação da pele do criador.

Alberto Carneiro encontra criatividade em pesquisas antropológicas. Trabalha com a memória colectiva e arquetípica – inconsciente e simbólica – associando-a a um entendimento individual, como se a revelação interior se associasse à produção objectual. Procura vida em tudo o que produz porque o seu trabalho implica uma ligação total ao seu corpo, à sua experiência e às suas necessidades mais profundas. Mas para que o seu trabalho se complete precisa igualmente do envolvimento total do sujeito que frui – tal como acontece na Arte Povera, a experiência da obra tem um papel determinante na medida em que se determina através de dados imediatos que afloram à consciência e que revelam o modo de ser e a vida interior do fruidor. Alberto Carneiro também segue a ideia de Joseph Beuys de que Arte é Vida e Vida é Arte.

Alberto Carneiro está interessado em intersectar a natureza, a arte e o corpo. Ao basear o seu trabalho na recriação, eleva elementos da natureza a obra de arte muitas vezes no próprio espaço da galeria ou no seu pensamento (através da execução de projectos). A desmaterialização da obra pode também constituir parte do processo, sobretudo no que diz respeito à tentativa de devolução da natureza ao seu lugar original, e onde a fotografia adquire um papel importante para o registo documental do processo. Outras vezes é o projecto sem execução que toma forma, através de descrições e instruções pormenorizadas abre-se a possibilidade de ser concretizado por qualquer fruidor.

Em ‘O Canavial’ (1968), Alberto Carneiro propõe descontextualizar um elemento da natureza para um espaço real, o espaço da galeria e assim cria a oportunidade para que o dia-a-dia do fruidor seja acrescentado e transformado. Maximizam-se energias de uma experiência primária através de elementos básicos da natureza fazendo corresponder à memória a metamorfose de um corpo ausente. No Canavial, a matéria  é disposta de modo a recriar a natureza, de modo a permitir o contacto do corpo. A mera representação não é suficiente. Carneiro acredita que a natureza deve possuir e comandar todos os sentimentos. Chega a referir-se à natureza e ao corpo como uma necessidade de descoberta das memórias mais arquetípicas que fundamentam a vida mais simples.

O Canavial ocupa a sala toda. É quase possível caminhar por entre as canas. E evocam-se memórias através do envolvimento / experiência de uma réstia de natureza real. Existe um desejo de origem e de regresso à essência do cosmos.  Alberto Carneiro não manipula a natureza, descontextualiza-a para que fique ainda mais profunda, próxima e acessível.

 

Ana Ruepp

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