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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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AINDA FIAMA DRAMATURGA: NOTAS SOBRE UMA PEÇA CENSURADA

 

Já aqui analisámos a abordagem criativa global do teatro de Fiama Hasse Pais Brandão: E tivemos ensejo de referir o conjunto dramatúrgico da autora, que desde 1958 escreveu e publicou uma série de peças que à sua maneira marcaram a renovação epocal do teatro português.

Cite-se pois, no seu conjunto, esta dramaturgia que em si mesma merece destaque: designadamente títulos como “Em Cada Pedra um Vão Imóvel”, “O Serão”, “O Cais”, “A Casa”, “Os Chapéus de Chuva”, “O Testamento”, “O Golpe de Estado”, “A Campanha”, “Auto da Família”, e “Quem Move as Árvores”.

Sobre este conjunto dramático, em si mesmo relevante, tivemos ocasião  de referir, num artigo aqui publicado, que “O Testamento” é reeditado no corrente ano, contendo a edição a reprodução de um carimbo da censura, no qual se esclarece que em 4 de setembro de 1963 a peça foi analisada pela Inspeção dos Espetáculos e “Reprovada”, como se escreve no carimbo da IE.

Ora tive já ensejo de referir que nessa época era difícil, por razões políticas e económicas generalizadas, levar à cena e portanto complementar a criação dramática em termos de espetáculo, o que em si mesmo não era nada estimulante… Este comentário é feito precisamente a propósito de um carimbo da Inspeção dos Espetáculos datado de 2 de setembro de 1963 e que considera a peça “Reprovada” (sic).

Ora bem: “O Testamento” é editado neste ano de 2021 (Portugália Editora), e logo na primeira página surge o carimbo de reprovação da IE, datado como referimos de 4 de setembro de 1963. Na época a peça não foi pois representada, mas seria entretanto publicada. E justifica-se, pela qualidade cénica e literária, o comentário.

Desde logo, pela prosa em si. Fiama escreve com grande qualidade e com sentido de espetáculo. A esse propósito, deve aliás citar-se o conjunto de obras que escreveu. E importa ter presente a evolução desta vasta dramaturgia que abarca algo com 15 peças de teatro, entre as peças publicadas e as inéditas.

Luis Francisco Rebello, na ”História do Teatro Português”, refere uma evolução estilística do teatro de Fiama. A propósito da censura, que atingiu alguns espetáculos previstos com obras suas, evoca a evolução a partir, e cita-se, “da revolta anárquica, surrealizante, das suas primeiras obras («Os Guarda-Chuvas», 1962; «O Testamento», 1963) evoluiu para um didatismo que lembra as Lehrstücke de Brecht de que aliás tem sido tradutora diligente”.

E refere então as peças de Brecht traduzidas por Fiama: “A Campanha”, “Auto da Família”, “Quem Move as Árvores”.

E é ainda de citar a fundação, em 1975, do grupo denominado “Teatro Hoje” e a existência de mais alguns títulos, designadamente de peças que não foram publicamente referidas mas que existem!…

 

DUARTE IVO CRUZ

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