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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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BESTANÇA

Bestança

 

Tormes fica perto da minha casa do Douro. A minha casa do Douro vai a Tormes fazendo-se ao rio e cumprimentando o Bestança no abraço ao grande Douro.
Claro que falo da Faubert, pois tento olhar para Eça com a minucia de retratar o solar meu e o dele, sem que possa existir uma resignada condição de mundo sem horizontes e submisso a um poder distante e hipócrita de única fonte.

Ali, onde estou, não se quer viver passivamente a miséria e a hipocrisia ao lado do cheiro das uvas cheias, redondas de tanta coragem. Ali, não podem existir destinos forjados. A vindima é muita e verdadeira. As sedutoras videiras convidam à vida e não à esterilidade.

A terra vista do rio tem uma ideologia marcada pela liberdade. Tem drama espiritual e converte-se, romântica, de geração em geração, numa pulsão de quem bem se conhece.

E surge o rio Bestança com a sua mensagem que veicula mais longe entregando-a ao rio Douro em sucessivos momentos inocentes e recentrados em torno de sintonias que escutamos naqueles finais de tarde de Agosto. Deus!, quantos imaginários!, saboreando passados sem submergir.

Os rios, estes rios, agora, vistos de terra são de uma transgressão erótica que remodela o pensamento e a forma de o imaginar. E eis a garrafa, aquela que o menino do bote pegou, e que tem dentro o amor e a compreensão do Tejo até lá, lá no muito norte que é sul paradisíaco, que é percepção de vontade não de mera qualidade estética, mas de obra.

E como em Camões, Garret e Camilo, ali mesmo, a subversão do nosso imaginário ciente da sua dimensão: a sensibilidade portuguesa de Eça assumida e a Geração de 70 adocicada.

E eis que a Mensagem de Fernando Pessoa reclama de seu exemplo, de sua verdade de sua ideologia e Oliveira Martins dá nova dimensão à ruptura mítica com o passado pois que as águas destes rios serão sempre futuro, também das terras, e das gentes que as olham.

Eis de novo Tormes, e o outro solar, a casa actual, o Bestança, o Tejo e o Douro, tudo regresso à casa lusitana, confronto connosco próprios que pode ser vivido sem meio-termo.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2014

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