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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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OS MAIS ANTIGOS TEATROS DE LISBOA – VII


O ODÉON

Desde logo se coloca aqui uma questão prévia – o Odéon foi concebido, criado e construído como cinema: o que não impediu que desde a origem fosse dotado de uma estrutura cénica adequada no espaço e no equipamento, e não tivesse funcionado como teatro musicado ou declamado, ainda que algo esporadicamente.

Em qualquer caso, o Odéon é ainda um teatro, com a característica arquitetónica, urbana e cultural de ter sobrevivido até hoje a mais de 10 anos de encerramento e incúria e a sucessivos projetos contrastantes de qualificação, recuperação e adaptação de fachada e interior, para funcionalidade comerciais diversas. A última, anunciada há menos de 1 ano, garantia a recuperação de alguns elementos estruturantes da sala, designadamente o teto e a boca de cena.

Há que dizer entretanto que o valor patrimonial do Odéon subsiste no exterior e no interior: trata-se com efeito de uma das raras expressões de arquitetura e decoração art deco em teatros, cinemas e cineteatros que ainda restam em Portugal com poucas e irrelevantes alterações – exceto, claro está, as decorrentes destes anos de abandono arquitetónico e funcional.

A vocação cinematográfica do Odéon vem da origem, foi projetado como cinema, por iniciativa de um grupo de empresários de Lisboa: e como cinema abriu portas em 1927 e durante anos foi, repita-se, a sua atividade dominante.

M: Félix Ribeiro recorda a inauguração, ocorrida em 19 de setembro de 1927: “O filme de estreia selecionado para a circunstância ajustava-se á importância do acontecimento – a Viúva Alegre, de Eric von Sroheim , com Mae Marray e John Gilbert nos protagonistas e que René Bohet, o excelente diretor da orquestra privativa sublinhou musicalmente com a segurança e o brilho a que viria a habituar o público”.. (in “Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa” 1979 pag.135).

Em certa fase, já nos anos 50/60, “especializou-se” em filmes espanhóis e mexicanos, que estavam meses em exibição.

Nessa época, como bem recordamos, o eixo Restauradores-Avenida e imediações constituía o centro cinematográfico de Lisboa, com o Condes ao lado, o Olimpia em frente, o Politeama, o próprio Coliseu que também fazia cinema, e no eixo Restauradores- Rossio, o Éden, o Cinema Restauradores na cave do Éden e o insólito Animatógrafo do Rossio, que ainda hoje mantem a notabilíssima fachada arte nova. Iremos aqui recordar algumas destas salas.

Mas precisamente – o Odéon representa a expressão mais conseguida e consagrada da arquitetura de espetáculos dos anos 20. Diz-nos José Manuel Fernandes: “O interior é notável pela sua grande cobertura em madeira escura, pelo palco de frontão Art Deco, pelos bojudos volumes dos camarotes, pelo lustre central, irradiando néons” (in “Cinemas de Portugal”1995 pag.44).

O Odéon foi predominantemente cinema, mas a cena permitia por vezes intervenções teatrais ou musicais, estas por vezes na estreia dos filmes. Mas recordo há dezenas de anos o Professor Eurico Lisboa, que já aqui evocamos a propósito do Conservatório, a declamar em cena um texto dramático, não sei se de sua autoria…

DUARTE IVO CRUZ

 

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