
Minha Princesa de mim:
Vários leitores me contactaram para saber um pouco mais da Galla Placídia falada na minha última CARTA. Pareceu-me interessante o que acerca dela já te escrevera, anos atrás e aqui reproduzo…
INTERVALO
Galla Placídia Augusta tem, na história da gente real, uma grandeza tão mítica como a de Dido, rainha de Cartago, que Eneias desprezou para ir fundar Roma… Ou talvez maior, precisamente por ter sido real, no tempo e no modo, o seu sonho, o seu esforço, a sua coragem e devoção. Filha de Teodósio Magno, será por essa linhagem imperial – que sempre estimou acima de tratações, sucessos e desaires – filha e irmã, mulher de imperadores… e afinal mãe, só por essa linha de fidelidade, do último imperador do Império Romano do Ocidente, Valentiniano III, morto assassinado em 455. Digo-o último, sim, porque todos os outros que se foram registando depois, até Rómulo Augusto, destituído em 476, data “oficial” do fim de tal Império, foram surgindo de manobras, crimes e intrigas, sucessivas tentativas vãs de aguentar uma aparência de estado, já sem soberana linhagem nem a Virtus romana… Galla tinha duas forças: a do carácter teimoso e resoluto, e a da sua profunda fé e devoção cristã. Esta tê-la-á ajudado a aceitar casar-se com o visigodo Ataulfo e o romano Constâncio, e ainda a tratar e contratar com rivalidades romanas e ameaças bárbaras. A pertinácia, o faro político, ou sentido de Estado e permanência, lhe terão ditado o raciocínio e as decisões. O que, sempre, sempre, mais me tocou nessa história, eivada de intrigas e banalidades políticas, foi a possivelmente única vitória final de Galla Augusta: ela já não assistiu ao fim atroz do imperador seu filho, e fora antes finalmente inumada em Roma (junto a seu pai, é certo e significativo), em vez de repousar no mausoléu que para si mandara edificar (e ainda hoje existe) em Ravena (na altura capital do Império). Mas, ainda que a título póstumo, viu a vitória do dogma da hipóstase das duas naturezas de Cristo, divina e humana, reunidas numa só pessoa, defendido pelo seu amigo, o papa Leão Magno ( que salvou Roma de Átila), no concílio de Calcedónia, em 451, um ano após a sua morte. Refiro este episódio da história teológica, porque Galla Augusta viveu com a obsessão da compatibilidade do divino e do humano, e vendo na pessoa de Jesus Cristo o sinal de Deus para o devir do Império Romano, a união da cidade dos homens com a cidade de Deus… Foi essa também a obsessão de Jerónimo Savonarola. Nenhum deles, com mil anos de distância, teria, penso eu, visões teocráticas da sociedade política. Tinham, isso sim, uma entranhada fidelidade, muito íntima, ao sentido da legitimidade. Para Galla Placídia, Roma deveria acolher, tratar, federar-se até, com os bárbaros que a cercavam e penetravam, desde e para que mantivesse a unidade que a linhagem imperial garantia, e que a fé nova do império, o cristianismo que o papa representava, necessariamente consagrava. Para frei Jerónimo, não havia outra linhagem que não a vontade democrática (que afrontava e tinha expulso de Florença a tirania dos Medici, e questionava os usos, abusos e costumes do papa Borgia, Alexandro VI), cabendo aos profetas lembrar ao povo a justiça que Deus de todos nós espera e reclama. Entre a princesa romano-bizantina de sangue e o frade mendicante nascido numa família de Ferrara, da qual pouco ou nada se sabe, tudo será diferença: a época e a circunstância, a categoria social, a inspiração das ideias e desejos, a motivação dos atos. E, todavia, passa por eles o mesmo sopro. Que lhes segredou que, se não houver fidelidade e abertura, retidão e justiça, muito se poderá perder e talvez tudo, ou quase, esteja errado. A princesa morreu sem violência, só previu o que iria acontecer ao seu império, ao seu sonho e dinastia. O dominicano foi finalmente enforcado e queimado em praça pública. E, para que o povo não guardasse relíquias do profeta, lançaram ao rio Arno as suas cinzas. Menos de um século depois, Lutero proclamava, em revolta e oposição a Roma e a muitos príncipes, a reforma protestante que, profeticamente, Savonarola, pressentira crescendo no coração dos povos, mas ignorada por quem, como dever primeiro, deveria escutar os outros… Há quem teime em servir Quem (e cá me lembro do Quem do “Ano da morte de Ricardo Reis”) não possa morrer, como disse Sophia na sua “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”: Nunca mais a tua face será pura, limpa e viva, nem o teu andar se poderá nos passos do tempo tecer. E nunca mais darei ao tempo a minha vida, nunca mais servirei senhor que possa morrer… Cito de cor – da memória do coração – ocorreu-me esse poema lindíssimo ao pensar em Carlos V. Creio que este imperador, mais ainda do que o Duque de Gandia, que o servia, e à imperatriz, poderia ter assim sentido a morte de Isabel de Portugal. Quiçá dois desastres íntimos – daqueles que põem à prova qualquer fé – terão abalado Carlos de Habsburgo, e levá-lo a abdicar, para se retirar no mosteiro dos jerónimos de Yuste: a morte da mulher tão admirada e profundamente amada, e a incapacidade de consolidar uma aliança política e de fé, numa Europa que as desavenças entre católicos e protestantes dividiam, e o cerco otomano ameaçava… É certo que derrotou e fez prisioneiro Francisco I de França – o tal que, contra ele, tentou alianças com forças da Reforma e com os muçulmanos – mas o sonho que da cidade de Deus tinha era mais largo e magnânimo, para que todos vivessem em paz uns com os outros e com o Senhor de todos. Era hispano-austríaco, amorosamente casado com uma portuguesa, mas nascera na Flandres, percebia as razões dos movimentos da Reforma e as contra-razões de Roma… Talvez tenha começado a morrer à morte de Isabel, quando se sentiu tão só com o seu cansaço. Os sonetos nº. 3, 4 e 5, de amor mordido, são convívios com estas personagens.
Camilo Martins de Oliveira
Senhor Camilo Martins de Oliveira,
Vou lhe facultar algo inédito em italiano original, relacionado com a família Ferrara, deste tal frade medicante que fala, não falam dos anos 450, não. A Casa de Ferrara nasceu em 855.
Neste registo que lhe deixo vai encontrar muitos Sonetos e que podem ser reeditados, como seus, já passou centenas de anos que o autor não vai dizer nada.
“Entre a princesa romano-bizantina de sangue e o frade mendicante nascido numa família de Ferrara, da qual pouco ou nada se sabe, tudo será diferença:”
Alfonso Maresti · 1708
… fintamente Nobile di Cafá Fiaschi derivante dalla famiglia Fiaschi di Ferrara ; e … matrimonio in Cafa Coffa ; fi aspettaffero giuridicamente alla Casa de Signori ..
TEATRO GENEOLOGICO Dell’Antiche , & Illustri Famiglie di Ferrara. DEL CONTE, E CAVALIERE ALFONSO MARESTI FERRARESE, PAR TE QUARTA, Dantariò di Antari :
A prima Famiglia, che in questo terzo volume de mio Teatro Gencologico io, prendo à descrivere, à Similitudine del fiome Nilo, nasconde il suo principio , cioè la sua origine in Ferrara . ” lo sò molto bene, che il nostro Ugo Calefini, in tanto credito appreffo, tutti li noftri Scrittori, che viene citato, & addotto così dal famoso Gio: Battifta Pigna , come da Gasparo Sardi Istorico di Ferrara, nello scrivere,ò defcrivere le Famiglie Nobili di Ferrara, nota che la Famiglia D’Aritari di Ferrara, discende da Antari Rè de Longobardi , A ma non per questo devo imitarc cere’uno, che efsendosi posto a scrivere di questa Famiglia, è fine forsi di fare l’Opera voluminofa , hà principiato a descrivere le guerre fatte da Antari sudetto, col dire poi che questo Antari hebbe un Figliolo per nome Arnolfa , quale venne ad abitare in Ferrara, senza poi adurre alcuna testimonianza, anzi confessando di non avere Autore, che ciò confermi, ļo non pretendo di fare il Poeta col fingere , ne l’indovino in un fatto , che con la stessa facilita si puole è asferire , ò negare, Chi vuole leggere la vita , e le guerre di Antari Rè de Longobardi potrà con migliorę lodisfatione leggere ļl Regno d’Italia sotto i Barbari descritto dalla famosa penna del non mai à bastanza lodato Conte Emanuele Tesauro fol, 59, 60, l’Italia illustrata da! Biondi fol, 162, Paolo Diacopo lib, 3, 4, € 6. dell’Istorię de Longobardi, fra Leandro degli Alberti nella difçritione di tutta l’Italia, & altri molti; peroche io non prendo a scriveşe se non quei personaggi, che furono Nobili in Ferrari; onde farei errore ben grande fe passasi a trattare di quelli, che mai si sognarono di vedere Fera rara, non che di essere Cittadini, e Nobili Ferraresi”, Seda Antari nascefse un Figliolo chiamato Arnolfo, io nol poffo affermare, peroche il fopracitato Emanuele Tesauro fà folo mentione di Agilulfo Paolo nato da Teodolinda di Baviera ,
O Rei da Lombardia era Berengario filho de Guigues, o Dauphin de Viennois, os irmãos a Savoie e sua origem da Saxóniae. A casa dos Duques de Lombardia vem do tempo de 560.
João Felgar
Existem muitos mais Sonetos da sua Princesa, dou lhe a primazia em traduzir los e pode assinar como seus, é a Cultura a falar.
EL TEATRO GENEOLOGICO. ET HISTORICO Dell’Antiche, & Illuftri Famiglie di Ferrara DEL SIG. CONTE, E CAVALIERE ALFONSO MARESTI FERRARESE.
Opera, poftuma data in Luce
DAL CONTE GIQ; FRANCESCO SVO FIGLIO.
HI è costui, che cinto, il crin d’aloro
I bei rai di victù sparge d’intorno,
Onde il suo Nome anche degli anni à scorno
Immortal passerà dall’Indo al Moro:
Chi è costui, che con genti lavoro
Chiama gli Eroi già fponti à far titorno,
E per cui riede il fortunato giorno,
Del nostro bello, antico, almo decoro.
Che è costui, che alteramente spande
Le memorie degli
Aui alme, e gioconde
Efe fregiando a lor telle ghirlande;
ALFONSO é quefti Appollo ini risponde,
Il cui nome immortal fatto è di grande,
Ch’anche la cieca Inuidia yrta, é confonde.
Dott. Giuseppe Lanzoni.
SONETTO.
Val ricez genima, che nel grembo auaro
Di conca oriental, si chiude, c cela,
A gli occhi desiofi non riuela
Dell’occulto Teforo il pregio raro,
Mà s’ amica rugiada il frefco; e chiaro
Vmfor{opea ke-Spande, 6. vi li gela,
Ecco si apre la concasi ecco fa suelas )
Luminolarda gemma al Sole, à parox
Tal vi celaua dormigliore penatis not a posis? scoil
Nel cieco feng sblmnipfo Lete
Prcgi del FERREO. fuple, e glorie antiche,
Mà che? più chiare, e gloriofc, facto
Or che vi {pruzza fol di inchioftri, e acreani
obspiena man chiare ruggiade amiche, nd)
Dell’Accademico Risoluto Dors. Girolamo Baruffaldi.
V Chi mai de “fatti mici l’Opra vctusta?
SONETTO.
Oriíte, ALFONSO, è al tuo morir parcá,
Piargere afflitta la tua Patria Augufti.
E chi proseguirà (meita dicca) ,’
Dunque troncasti tù la bella Ideat hiLO
Sü’l suo faggio fiorire, Ó Parca ingiufta?
In tal guisa FERRARA (ahime!) piangea, RisPer l’onor fuo credendo ogn Alma langufta. Non ci lagnar (rispofe all’ or l’itoria’s 19:15 12.
Bella del pari füor d’ogni periglio;
Col lustro forgerd della tua Gloria SP
Rapisi del Destino all’ empio artiglio 3;197
GIOVANNI degl Eroi l’alta memoria:
Chc fe ALFONSO mori, restouni il FIGLIO.
João Felgar