Meu filhinho:
E muito te desejo saúde. E tantas saudades tenho de ti. Aqui te botei no mundo com tanta alegria e te criei e o teu fadário foi ires buscar vida numa terra tão longe da tua mais rendosa para que outro galo te cante mas filhinho ainda hoje na festa da vindima ouve animação e fogo numa estrondearia que só visto e procissão e eu mãe no choro sem ti e tu filhinho dizes que virás mas que por ora não dá e lá me envias um dinheiro para os remédios mas estou ruim da alma por tantas saudades tuas e é sempre a mesma conversa o médico lá me diz que para a alma não tem como me ajudar. Bem-no escuto e lá me meto a caminho da horta com o teu cheiro na memória filhinho e quero dar a teu pai uma ideia prazenteira de teu futuro e só me ocorre tu pequenino a acreditar que o seio da tua mãe era tudo e não era afinal. Mas acredita no bom agoiro e na tal certeza que basta para mais uns anos e virás por tua causa e por causa de teus pais e desta terra que se visses como está sem ti meu filhinho valha-nos Deus. Com o rodar dos anos filhinho amado o que recordo quando te vi rebento de truz consola-me a esperança mas é martírio o que trago no peito por não te ter dado um futuro aliviado da tua partida. Filhinho recebi a tua carta a pedir notícias nossas e digo-te que teu pai não há quem no ature de noite a dormir aos migalhos que a abafação da tosse mais não permite e eu bem me custa afligir-te mas a moléstia grande é tu estares aí sozinho e não falares a fala das gentes para quem trabalhas e assim nem pão saberás pedir ainda que aqui pão com a bênção de tua mãe e de teu pai sempre aqui terás ainda que o andamento da vida seja o mesmo que conheceste e muito fizeste tu em achares coragem e partires para uma fome mais saciada e não me resigno filhinho até a maria celeste e a da purificação me acham assim mirradita mas diz quando achas que vens para eu ir destinando matança e nada faltará pois que estás sempre em meus cuidados e olha recebe a minha bênção tua mãe e a de teu pai e tantas saudades te envio que por elas a força de te aguardar aqui a tenho no peito toda junta e vai ser um outro parto quando te voltar a ver.
Teresa Bracinha Vieira
Meu amor,
Eu não sei bem, o que te quero dizer, a vida aqui permanece na mesma, cada vez tenho mais saudades, cada vez o tempo custa mais a passar, cada vez tenho mais vontade de te ver. Tu dizias para eu te dizer se poderia ir ter contigo até Leiria, tu virias até lá. Amor, porque é que não queres vir antes até Monte Real, eu iria até à estação. Depois, podíamos apanhar a camioneta para a praia ou para outro sítio que escolhêssemos. É que dizer aos meus pais que vou a Leiria ter contigo, para eles, é não querer que tu conheças o ambiente e as pessoas com quem vivo. É claro, que eu também não gostaria, têm na cabeça aquele comportamento da mulher no namoro, e como tal a mulher não pode ir esperar o homem, e muito mais.
Amor, eu talvez até preferisse ir encontrar-me contigo em Leiria, haveria mais sítios por onde nós passearmos, mas se nós o que queremos é mesmo ver-nos um ao outro, o lugar, afinal até não interessa muito, pois não, meu amor? Se tu puderes e quiseres vir, diz-me como vens. É que se ficamos aqui na santa terrinha, a ser alvo de todos os olhares cá da aldeia, ninguém considera amor aquilo que nós manifestamos, claro que não havia nada de mal a mostrar às pessoas, mas seria um falatório.
Podíamos ir para a Praia. Pedro, não é por comodismo que escrevo assim, tu bem sabes, que por mim, até ia a Lisboa já, mas os meus pais fizeram e fazem muito por mim, e não tenho o direito de os entristecer, eu e a minha irmã, somos os receptáculos de todos os seus sonhos, a razão do seu caminhar, da sua existência, do seu viver. Eles sempre me mostraram o receio de eu me vir a dar com pessoas que não os aceitassem a eles e ao ambiente em que vivem. Não quero de forma alguma, que eles possam antecipar essa hipótese.
Amor, desculpa, eu estar com estes sentimentalismos e esta aparência de menina mimada.
Aldina, 1975
Obrigada.
Boas leituras.