E valha-te que não sou de pedra!
Tal era o António Vinhas, homem austero e de crenças rígidas, teimoso o que baste para rejeitar que haveria alguém mais forte do que ele nas grandes verdades morais da justiça, e de tal peso as formava, que esmagava qualquer argumento que se lhe pusesse diante.
Para a aldeia, no geral, não existiam mais leis do que as do capataz da Dona Mercês, escolhido e levado a batizar por ela, António zelava-lhe pelas vinhas e demais propriedades, como se todo o poder de Deus lhe tivesse sido delegado e o praticasse a bem de orientar o rebanho de gentes sob a sua ordem.
Sempre entendeu António Vinhas que a inocência de um ato era ele que avaliava, e a humildade deveria ser a de nunca ninguém contestar a sua decisão.
Um dia, Quim Bastardo, atrasou-se na hora de iniciar a empa, pois a mulher tivera parto pela manhã e tocou-lhe aquecer as águas na aflição entre a hora do trabalho e o nascimento do filho.
Vinhas questionou-o:
Mas o quê? Fizeste votos para chegares a estas horas?
A minha mulher teve filho e eu, desgraçado, a ajudá-la!
Meu Deus!, que me dizes tu, infeliz!, pois a isto somos chegados! Já os homens andam metidos com o parir! É por isso que até a misericórdia de Deus se cansou!
Quim Bastardo, de coração desapertado e de face alevantada como quem roga, acresceu:
Foi só hoje, foi só hoje. E já cá está mais um para a empa futura.
Ah, tu é que decides a vantagem do prejuízo? És mesmo trengo! Ainda não percebeste nada de nada? Pois que te dou eu uma consolação: não aguardes tu o soldo tão cedo, e agradece muito a Deus que eu saiba que os cordeiros da bênção vão para um lado, e os cabritos da maldição para outro. E valha-te homem que não sou de pedra!
Teresa Bracinha Vieira
Na capoeira lá de casa, enquanto as galinhas procuravam pacata e minuciosamente, os grãos de milho por entre a caruma que cobria o chão, os galos atiravam-se uns aos outros, picando os pescoços até sangrar, mesmo a escorrer sangue continuavam a picar-se, até que por fim, já só ficava um, que então cantava de galo. Coitado, mesmo a esse era cortado o pescoço, porque era preciso para o jantar.
E hoje não faço mais comentários, porque é dia de NOSSA SENHORA MARIA, que sofreu as dores do parto e pariu JESUS. MARIA, mulher e mãe, que nas culturas atuais é TERRA, NOSSA MÃE.
Acrescento apenas ao comentário anterior que, para descrever a ação divina no seio materno, o salmista (Salmo 139, versículo 1) recorria a imagens bíblicas clássicas, comparando a cavidade produtiva da mãe às “profundezas da terra”, isto é, à vitalidade constante da grande mãe terra: “Quando os meus ossos estavam a ser formados, e eu, em segredo, me desenvolvia, tecido nas profundezas da terra, nada disso te era oculto”.
Grata pelas suas leituras e atenção ao mundo destas estórias.
Boas leituras!