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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Crónica da Cultura

CRÓNICA DA CULTURA

Desassossego

  


Ficou-lhe o gosto daquele momento inesperado e, sempre que podia, atravessava a ponte e vinha até ao lugar do povo na esperança de ver passar o corpo generoso e solto da Gracinda.

Tornou inúmeras vezes. O milho já era alto e depois até o inverno já chegara, e nada da rapariga aparecer.

Ele, ainda na tropa que o chamara, fazia tudo para aos fins de semana se fazer ver junto ao chafariz onde a vira. Até que um dia, um dia, deu por ela de cachopinho junto ao rosto e aquele sorriso de quando a paz tudo cobre.

Não te sabia já assim – atirou-lhe.

Olhe lá que não saiba – respondeu Gracinda.

Outra vez, há muito tempo, vi-te e nunca mais te esqueci. Queria-te sempre na minha lembrança, e afinal, vejo agora que já tens prole.

Vossemecê é maluco! Eu conheço-o lá! Só conheço de quem pari e de quem já de novo me encheu. Andai, andai, o que você quer bem sei eu…ande lá!

Adeus – disse no fim, sem olhar o homem.

Então adeus…

Só dez anos decorridos é que voltou a passar junto àquele chafariz, agora era ele acompanhado de duas crianças. Nos braços carregava uma verdura túmida que, de súbito, lhe parecera o corpo de Gracinda a tentá-lo. Não conseguia entender como este sentir se lhe voltava a apegar tanto tempo passado, mas todo o seu calor era o de um forno. Continuava a não perceber como nunca saíra daquilo.

Foi num setembro que aquela espécie de inquietação o largou de vez. Algum marachão, pensou.

Teresa Bracinha Vieira

2 comentários sobre “CRÓNICA DA CULTURA

  1. Defendo o casal, sem petas, e se possível, para toda a vida, o que nada implica a ideia de submissão quer da mulher, quer do homem. Outros primatas próximos de nós, e.g. o gibão assim vivem. Faço esta defesa, quer do ponto de vista biológico, como psicológico, como do desenvolvimento integral dos filhos. Estou longe de defender a família tradicional. Temos absoluta necessidade de continuar a desconstruir a supremacia masculina, que pelos instintos de agressividade e poder, até a Bíblia lhes serve para praticar a ignóbil situação mundial.

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