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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    © EPA/Alejandro Garcia/Lusa 2026


253. SER HUMANO-COISA LIGADO A UMA MÁQUINA QUE SERVE PARA TUDO?

Transitando do teocentrismo para o antropocentrismo, a velha cultura do humanismo, que coloca o ser humano no centro de todas as coisas, está em decadência, porque emergiu um novo intermediário transformador, a máquina.       

Tida, até há pouco, como mera ferramenta, sem vontade própria e controlada por nós, eis que surge um novo tipo de máquinas com a revolução digital, com alguma autonomia e “vida própria”, desde o computador ao telemóvel, da robótica à inteligência artificial.     

É a ascensão das máquinas criativas e inteligentes, que questionam a centralidade do humano, adicionando ao biológico o que de melhor existe no artificial.     

Esta fusão entre natural e artificial vai originando seres híbridos, uma nova cultura que ainda não se exprimiu na sua plenitude, mas que terá de se expressar de maneira a distinguir que parte pertence a quem e o quê. 

Indicia-se vir a caminho o ser humano-objeto ligado a uma máquina que serve para tudo: conversar, comprar, cozinhar, encomendar, entregar, fazer sexo virtual, trabalhar, gerir, programar, movimentar contas bancárias.

Há quem opine que a era da televisão potenciou grandemente a solidão. Que dizer, agora, do computador e telemóvel, eminentemente pessoais e de uso individual?     

Tornar-se-á o ser humano, no limite, um robô, que não interage presencialmente com ninguém (ou quase ninguém), agarrado 24 horas por dia ao computador e ao telemóvel, teclando e de olhos no ecrã? O que é agudizado pelas novas gerações, infantilizadas pelo uso excessivo das novas máquinas, trabalhando, enviando e recebendo continuamente mensagens, jogando jogos ou playstation. Há adultos de velhas gerações que também já o normalizaram, infantilizando-se e preferindo carregar febrilmente as teclas, mesmo se reunidos em grupo.   

Compreende-se que aquando do aparecimento da tevê, se usasse, de forma figurada, a afirmação de que “a lareira é a nossa televisão”, porque era o centro da casa, onde as famílias se reuniam e conversavam, favorecendo o entretenimento e o diálogo, ao invés do televisor que tendia a secar, ou secava, tudo à sua volta, mesmo quando em grupo.

Que dizer, hoje, das últimas maravilhas e vanguardas tecnológicas, de utilização individual, onde a regra é o silêncio, a que não sobrevive um comentário ou uma observação em grupo? Vamos ser mais felizes? Ficar mais sós? Mais egoístas? Com menos vida coletiva? Sem percebermos a importância da presença humana, ou da mera audição da nossa e da voz do outro?       

De todo o modo, há que esperar, dado que a sociedade não é uma soma de pessoas individualizadas, sabendo-se que o que há a ganhar e a perder ainda não se clarificou, tendo presente que todas as vanguardas estão, pela sua própria essência de experimentação permanente, condenadas ao efémero, pois outras alternativas acabarão por superar as anteriores.


27.03.26 
Joaquim M. M. Patrício 

4 comentários sobre “CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  1. Obrigada pela sua crónica, Sr. Doutor Joaquim Patrício!
    E grata sobretudo, pela atitude positiva com que a termina. A propósito, deram-me esta semana, o recente livro de A. Damásio, sobre a Inteligência Natural, acredite que fiquei feliz e vou transcrever-lhe apenas dois períodos que acho que vão na linha do seu pensamento:
    “As máquinas artificiais não podem contar com as maravilhas da Inteligência provindas do mundo dos sentimentos e da Inteligência Natural. Os sentimentos ajudam-nos a esclarecer as coisas, limpam a confusão dos factos e os pormenores factuais, e aproximam-nos do ponto onde devemos estar para permanecermos vivos e compreendermos o mundo.”

  2. Este é um tema muito actual que nos faz questionar o quanto já dependemos da tecnologia no dia a dia! A ideia do “ser humano-coisa” ligado a máquinas é inquietante, mas ao mesmo tempo muito real. Gostei especialmente das perguntas que deixa no ar, sem respostas fáceis. Faz-nos reflectir sobre o equilíbrio entre progresso e presença humana. Uma leitura actual e provocadora.
    S

    1. Bem haja pelas palavras e sensibilidade nelas sentidas quanto aos questionamentos e reflexões do texto.
      Boas leituras, incluindo neste blogue.

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