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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Diversidade, uniformização e unidade com diversidade

Quem aprecia a diversidade e a pluralidade, aplaude a diferença, a singularidade e a especificidade, em contraste com a monotonização e a uniformização, em que tudo se unifica e nivela segundo um esquema cultural homogéneo.

Há que fazer uma opção entre a vontade de igualizar, padronizar e uniformizar a visão do mundo, e quem escolhe estar do lado oposto ao da estandardização, apelando à diversidade.

Aqui chegados, preferimos, em abstrato, a diversidade à uniformização. 

Se se tiver como adquirido que nada na vida tem só vantagens ou desvantagens, isso não significa que, no concreto, se tenha sempre de optar pela mesma preferência, uma vez haver que fazer escolhas consoante o contexto e as circunstâncias em que nos movimentamos.   

E aceitando-se, em qualquer caso, que há que ter sempre como referência um mínimo denominador comum e unitário, entendemos ser preferível, a priori, a unidade com diversidade, à diversidade sem unidade ou à unidade sem diversidade.   

Para quem defende a diversidade, em abstrato, terá tendência, por exemplo, a não gostar de centros comerciais, se pensar que são iguais em qualquer lugar do globo terrestre, dada a sua globalização e monotonização massificada, com as mesmas lojas, as mesmas marcas, os mesmos produtos à venda e montras arranjadas do mesmo modo, tudo organizado de acordo com normas feitas por técnicos que as impõem a todos os estabelecimentos em cadeia, sem espaço para alterações. 

Na sua impessoalidade não têm nada de específico, da particularidade ou diversidade do local onde se encontram, além de contribuírem para a desertificação dos centros urbanos, sorvendo milhares de pessoas às ruas. 

A que se junta, crescentemente, entre nós, um uso excessivo de termos e marcas em que o inglês é a nossa língua de serviço, quiçá porque o português “não comercializa”, “nem rende”, é rústico, não snob ou não suficientemente civilizado.   

Mas a esta monotonia nefasta e global, também acrescem os seus benefícios de alguma homogeneidade, pela sua comodidade, para o consumidor, dos seus horários, poder fazer uma variedade de compras no mesmo espaço e adquirir bens de que gostamos em qualquer parte do mundo. 

Entre prós e contras, há que repensar e inverter esta tendência de um mundo cada vez mais monótono, onde a sociedade digital acelerou este processo de uniformização através dos novos algoritmos, criando alternativas aprazíveis nos centros urbanos e elegendo, como solução de síntese, a via da unidade com diversidade, em obediência ao princípio da totalidade, segundo o qual sendo interdependentes os elementos constitutivos do todo, este não é a sua mera adição, pois para além das  particularidades das suas partes, estas apresentam propriedades comuns submetidos às leis da totalidade, sendo necessário começar pelo todo para explicar as seus elementos.  


Joaquim M. M. Patrício

Crónica Pluricultural n.º 259 de 8 de maio de 2026

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