Sabe-se que os territórios da literatura atravessam fronteiras em todas as direções, constituindo mesmo uma estadia para uma outra vida e para um outro tempo de viver a vida.
No longo tempo do mundo, a literatura faz-nos viver vida e morte numa passagem com inúmeras ruínas e admiráveis gaivotas.
Mas muito é o que nos abandona, vindo de quem nunca nos explicou as razões dos abismos.
Começa-se, enfim, a esclarecer em nós o quanto muitos dos que se dizem incapazes de continuar a escrever explicam todas as suas justezas numa escrita absolutamente sublime.
E entendemos, então, que há sempre que procurar mais longe, numa bisavó, num avô, na grande mesa da infância, o recuar no longo tempo até à primeira crise de angústia, de melancolia, de amor.
E de novo eis que se ultrapassam fronteiras à procura das causas, dos colapsos, dos espantos, compreendendo que a saída de um estado precedente de paz também envolve uma outra reconciliação.
Também se intui, ao longo do tempo do mundo, que a vida uterina é uma noite que protege a cor do mundo primordial, quando a literatura líquida é o melhor devaneio e se é parte ativa de um espetáculo.
E tudo é começo, tudo é Big Bang e o longo tempo do mundo não tem distância.
Depois, num mais tarde, sabe-se que os territórios da literatura são uma espécie de acontecimento de experiência extraordinária e, com eles, as coisas compartimentadas vão-se abrindo com brilho e tormento numa outra experiência iniciática.
E no longo tempo do mundo, assim e por aqui, nos escrevemos e nos aproximamos de nós.
Teresa Bracinha Vieira