“Nos Corredores da Biblioteca de Fátima” é um repositório literário sobre os olhares dos prosadores portugueses a propósito das Aparições de Fátima, constituindo um auxiliar cultural precioso.
«Nos Corredores da Biblioteca de Fátima – os Olhares dos Pensadores» de Agripina Carriço Vieira corresponde ao estudo realizado sobre a presença das Aparições na prosa em língua portuguesa e envolve uma contabilização de 600 livros e textos escritos, assinados por 378 autores, crentes e não crentes. Trata-se de um contributo relevante para a análise do acontecimento histórico “estruturante da nossa identidade”. Uma leitura atenta da obra permite a compreensão dos acontecimentos ocorridos em Fátima em 1917, com as suas repercussões e projeções na literatura religiosa e secular até à atualidade. Eduardo Lourenço afirmou, por isso, tratar-se Fátima de “um acontecimento mundial e ao nível sociológico que é, hoje, um fenómeno universal”, daí ter entrado nos enredos da escrita ficcional.
Quando lemos O Milagre Segundo Salomé de Rodrigues Miguéis não podemos deixar de pensar que um grande escritor obriga os seus leitores a refletir sobre a essência do fenómeno humano. E neste caso é a sociedade na sua complexidade que é objeto de análise e crítica. Do mesmo modo, quando lemos A Garça e a Serpente de Francisco Costa, somos levados a ir além do que constitui a representação dos acontecimentos e a intervenção dos protagonistas. Em ambos os casos, a literatura obriga-nos a ir à etimologia do fenómeno religioso, articulando o re-legere, como reflexão, e re-ligare, como diálogo e e coesão. Daí que a Literatura seja sempre um apelo à inquirição e à compreensão sobre o sentido da vida.
Nos primórdios, em Fátima – Graças. Segredos. Mistérios, Antero de Figueiredo usa o método tradicional do romance histórico, concedendo ao relato uma importância que deve ser percebida como nos é dada, isto é, como testemunho literário, a merecer a atenção que corresponde a um fenómeno com leitura popular e visão erudita. Já no conto “Fátima”, Maria Velho da Costa apresenta-nos um pequeno pastor rebelde, que põe em causa o convite que lhe é formulado numa aparição. Isto, enquanto em A Senhora lhe pague, de Sérgio Ribeiro, o fenómeno é tratado numa perspetiva crítica, sociológica e etnográfica. Por outro lado, na novela de José Luís Peixoto, Em teu ventre, a narrativa centra-se nas vivências de Jacinta, Francisco e Lúcia e suas famílias, entre os meses de Maio e Outubro de 1917. As repercussões da experiência mística dos Pastorinhos na Cova da Iria são descritas a partir das opiniões e dos pensamentos das quatro personagens da narrativa: Deus, Lúcia, a mãe de Lúcia e a mãe do próprio autor. Em A hora de Maria, Nuno Lopes Tavares empreende o questionamento do fenómeno de Fátima, enquanto construção de uma narrativa de suspense e intriga. Em O Último Segredo de Fátima, Luís de Castro trata o fenómeno religioso de Fátima centrado nas afirmações e análises do acontecimento partindo da vivência da religiosidade, que consiste na referência à existência de três segredos confiados pela Virgem. Recorrendo a uma argumentação criativa, o romance de Luís de Castro encena algumas das principais correntes antifatimistas, sem no entanto adotar nenhuma.
O romance de Miguel Real, Cadáveres às costas, coloca o fenómeno religioso de Fátima no âmago da trama. É a história de um jovem que decide ser escritor e que parte em busca do tema do seu romance. Há uma reencenação dos acontecimentos de 1917 e um jogo de espelhos, estabelecendo-se um sistema de vasos comunicantes. Como diz Miguel Real, a propósito de A Cidade do Fim, o acontecimento de Fátima é «profundamente português, não um fenómeno isolado, encontra-se solidamente ancorado na cultura portuguesa, sobretudo na vertente bem constitutiva, transversal à totalidade da história de Portugal, da sua história mítica». Se nos reportarmos ao conto O nome que te deram antes de nasceres, da autoria de Ana Margarida de Carvalho, no livro Pequenos Delírios Domésticos, este traz-nos para o centro da história uma família de Fátima e o modo como o fenómeno religioso determina a sua existência. Toda a obra de José Saramago é percorrida pelo questionamento e reflexão sobre a representação da religiosidade e do modo como a cultura judaico-cristã incorpora essa herança, apesar de o autor revindicar reiterada e ostensivamente a sua condição de ateu. A ida de Ricardo Reis a Fátima suscita uma séria reflexão sobre o fenómeno popular e o fundo cultural cristão.
Mais do que uma discussão do fenómeno religioso, no segundo volume da trilogia O Princípio da incerteza, intitulado A alma dos ricos, Agustina Bessa-Luís traz para o centro da narrativa a questão da vivência da religião, perspetivada a partir da devoção a Maria. Já o questionamento do país e da condição do homem percorre toda a obra de Valter Hugo Mãe, em A Máquina de Fazer Espanhóis sendo reiteradamente identificada como uma das marcas da produção literária do autor.
Em Deus Pátria Família, Hugo Gonçalves procede a um exercício crítico de revisitação e reescrita das aparições. E em António Lobo Antunes, sobressai o tom no qual perpassa um rasto de perplexidade, mas igualmente de ponderação da vida. As personagens de Francisco Costa procuram e encontram junto da Senhora de Fátima ajuda para as dificuldades com que se confrontam. No caso da obra de Mário Cláudio, deparamo-nos com o olhar distanciado de Tiago Veiga, no seu Santuário e na vivência dos peregrinos que o visitam, numa síntese da própria identidade. Lendo Miguel Torga, percebemos a natureza paradoxal do que está em causa: «Levas e levas de peregrinos em direção a Fátima. E estrebuchem no papel os livres pensadores. Se não há sobrenatural, como eles afirmam, há pelo menos necessidade de transcendência. (…) O ar miraculoso que ali se respira […] vem ao encontro de apetências recônditas do nosso subconsciente». (Diário, XII, 1977).
Concluamos com a autora: «Os livros do acervo da biblioteca que neste estudo lemos, contam Fátima (as práticas religiosas, a sociedade, o urbanismo, a economia, a cultural, a arquitetura, a política, o ordenamento do território…) em textos que são traduções livres de um dos mais marcantes acontecimentos da História de Portugal com repercussões dentro e além-fronteiras. A metáfora do caleidoscópio (…) espelha a pluralidade de olhares que observam o fenómeno de Fátima, apresentando reescritas do mundo a partir desse acontecimento.
A VIDA DOS LIVROS, de 4 a 10 de maio de 2026, por Guilherme d’Oliveira Martins
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