Dos desafios não teve medo, vestiu o seu universo cumprindo na saliência dos penhascos a palavra que poucos diriam. No pós-guerra alemão nunca se cansou de satirizar a motivação que levou à reconstrução dos países beligerantes na terra que se houvera feito palco de sangue de irrecuperáveis vidas. Não sei explicar de outro modo, mas julgo que G. Grass se habituou a zonas ermas. Este Nobel da Literatura em 1999, não partiu esta segunda-feira sem que escrevesse um poema à Grécia actual recordando que fora ela que “concebera” a Europa. O poema, intitulado, em português “A Vergonha da Europa” foi escrito em 2012. Carlos Leite deu-lhe esta tradução:
À beira do caos porque fora da razão dos mercados,
Tu estás longe da terra que te serviu de berço.
O que buscou a Tua alma e encontrou
rejeita-lo Tu agora, vale menos do que sucata.
Nua como o devedor no pelourinho sofre aquela terra
a quem dizer que devias era para Ti tão natural como falar.
À pobreza condenada a terra da sofisticação
e do requinte que adornam os museus: espólio que está à Tua cura.
Os que com a força das armas arrasaram o país de ilhas
abençoado levavam com a farda Hölderlin na mochila.
País a custo tolerado cujos coronéis
toleraste outrora na Tua Aliança.
Terra sem direitos a quem o poder
do dogma aperta o cinto mais e mais.
Trajada de negro, Antígona desafia-te e no país inteiro
o povo cujo hóspede foste veste-se de luto.
M. Teresa Bracinha Vieira
Abril 2015
