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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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POEMS FROM THE PORTUGUESE

 

POEMA DE MARGARIDA FERRA

 

margarida ferra.jpg

 

Escreve sempre que precisares

 

Escreve sempre que precisares de me dizer 

que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico. 

Os legumes que trouxe ontem 

não sobrevivem a mais do que uma geada, 

muito menos nós.

 

Escreve sempre que precisares, podes 

dizer-me outra vez que nunca houve inverno,

que este ano não há verão,

que estamos aqui e não estamos porque não sabemos 

se somos nós ou se somos aquelas 

quatro pessoas que vão à rua agora, 

encontraram a porta certa.

 

 

Escreve sempre que precisares, faz 

uma lista de compras, uma lista de desejos,

anota todos os pedidos que deixaste 

em poemas atrasados.

Escreve sempre que precisares 

de mais um postal com selo e carimbo. 

Escreve sempre que riscares 

na tua agenda mais uma morada.

 

Sempre que eu precisar vais devolver-me

uma caligrafia rebuscada que não é a tua, 

curvas a mais que não fazias na letra d.

Já não há desses manuscritos, 

só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los

(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).

Vai escrevendo. Sempre que eu precisar, 

as frases podem desviar deixas decoradas, 

repetidas como as mentiras,

demasiado gastas para serem inócuas.

 

Escreve em vez de costurares. 

Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,

arranhaste sem possibilidade de cura os joelhos, 

os cotovelos e as canelas 

(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).

Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,

os meus soluços nessas curvas 

a mais que não fazes na letra d:

as tuas linhas são rectas, verticais e justas,

as minhas letras são apenas caracteres.

 

Escreve sempre que puderes

só em vez de apenas,

recursos humanos em vez de 

resíduos urbanos. Talvez sejamos mais 

do que pessoas, temos tamanhos diferentes

e não servimos nos lugares que nos foram destinados.

 

Escreve sempre que precisares de uma porta

onde caibas, 

nunca trago chaves comigo.

 

in Curso Intensivo de Jardinagem, 2010

 

 

Write whenever you need

 

Write whenever you need to let me know

there is ice on your hands and on the inside of the fridge.

The vegetables I brought yesterday

won’t survive more than one frost,

and neither will we.

 

Write whenever you need to, you may

tell me again that winter never came,

that this year there won’t be any summer,

that we are and are not here because we don’t know

whether we are us or those

four people who are going out now,

having found the right door.

 

 

Write whenever you need, make

a shopping list, a wish list,

note down all the requests you left

in unfinished poems.

Write whenever you need

another postcard with a dated stamp.

Write whenever you strike

yet another address from your diary.

 

Whenever I need it, you’ll write back

in a far-fetched hand which isn’t yours,

much too rounded on the letter d.

Those writings no longer exist,

only I and the postman ever learned to decipher them

(and everybody knows even this isn’t true).

Keep writing.  Whenever I need

sentences that can avoid expressions learned by heart,

repeated like lies,

too worn out to be innocuous.

 

Write instead of sewing.

Even if you knew how, you couldn’t do enough mending,

your knees, elbows and ankles

torn beyond repair

(dancing has always been a remedy out of your reach).

Write that I see your falls in mine,

my sobbing in that excessive

roundness of the letter d:

your lines are straight, vertical and just,

my letters are only characters.

 

Whenever you can,

write lonely instead of only,

human resources instead of

urban residuals.  We are perhaps more

than just people, we are different sizes

and do not fit into our designated places.

 

Write whenever you need a door

through which you can fit,

I never carry any keys.

 

 

© Translated by Ana Hudson, 2013
in Poems from the Portuguese

 

 

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