
TU CÁ TU LÁ
COM O PATRIMÓNIO
Diário de Agosto * Número 14
Continuamos na Rota das 27 Catedrais portuguesas. Recomeçamos pelo Porto, de onde houve nome Portugal, e aí a (ix, a nona catedral do nosso roteiro) Sé Catedral é dominada pelas influências românica (séculos XII e XIII), maneirista e barroca (séculos XVII e XVIII). Na única cidade-estado portuguesa (como lhe chamou Jaime Cortesão) temos uma Catedral fortaleza – onde se casou D. João, Mestre de Avis e D. Filipa de Lencastre e onde foi batizado o Infante D. Henrique. A estátua de Vímara Peres recorda o tempo da presúria e Sophia lembrou que o Bispo D. António se assemelhou como pessoa à firmeza da Catedral. E chegamos à (x) Guarda – a cidade dos cinco efes: fiel, forte, formosa, fria e farta… A Catedral herda a tradição da Egitânia, construída depois do século XIV, mantendo hoje o seu magnífico traçado gótico… Sente-se a firmeza e a permanência da mais antiga fronteira do mundo. Depois, temos a (xi) Catedral de Aveiro – e já se adoçam os nossos paladares com os melhores doces conventuais do mundo, invocando-se também Santa Joana Princesa, irmã do Príncipe Perfeito. Era a antiga Igreja da Misericórdia, que sofreu alterações nos séculos XVI e XVII. Na cidade de Coimbra, capital de D. Afonso Henriques, cidade do moçárabe Sesinando, temos a (xii) Sé Velha, joia do nosso românico e a (xiv) Sé Nova, o mítico lugar renascentista da nossa cultura, em que houve o mágico encontro entre Antero de Quental e Eça de Queiroz. E chegamos à (xv) Catedral de Castelo Branco, a velha Igreja de S. Miguel do século XIII ou XIV, que foi sendo alterada ao longo dos séculos, até ao barroco e rococó. E continuamos até Leiria, com um novíssimo Cardeal, D. António Marto, e não esquecendo que hoje é 14 de agosto, data de Aljubarrota (1385). A (xvi) Catedral de Leiria é paradigma do maneirismo, numa edificação que abrange os séculos XVI a XVIII. Depois, (xvii) a Catedral de Santarém, belamente renovada, com os justíssimos prémios Europa Nostra e Vilalva – foi a igreja do Convento da Companhia de Jesus, construída sobre o antigo Paço Real em 1647 por iniciativa de D. João IV. Como se teriam regozijado Garrett e Herculano perante o brilho atual do monumento. E seguimos para Portalegre, “cercada / de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros / Morei numa casa velha, / á qual quis como se fora feita para morar nela”… A (xviii) Catedral de Portalegre é dominada pelo maneirismo do arquiteto Afonso Álvares do século XVI… Num salto a Elvas, encontramos a (xix) Sé instalada na antiga Igreja de Nossa Senhora da Assunção – construída sob o traço de Francisco de Arruda, podendo em redor usufruir-se do magnífico artesanato. E (xx) chegamos à Sé Patriarcal de Lisboa, onde se exprime a História da cidade e do mar, de S. Vicente e dos Cónegos Regrantes, bem próximo dos lugares de nascimento de Santo António de Lisboa e do Padre António Vieira. O monumento é riquíssimo e a estação arqueológica que alberga inesgotável – a antiga mesquita, o templo cristão, as reminiscências romanas, visigóticas, suevas, a presença moçárabe… E continuamos. Mais para sul, a jovem diocese de Setúbal, tem sede na (xxi) antiga igreja de Nossa Senhora da Graça, erguida no século XIII, no estilo românico-gótico – chegando até nós como referência maneirista. E se estamos na cidade do Sado não se esqueça a visita da preciosidade que é a Igreja de Jesus, projeto dos Jerónimos. Falando de Évora, a sua (xxii) Catedral foi Igreja episcopal visigótica, onde se situou uma mesquita e onde o Bispo D. Soeiro erigiu o templo em 1186. Porém, o que chegou aos nossos dias associa os estilos românico e gótico, com uma personalidade própria e inimitável. Na reta final deste nosso roteiro – temos a (xxiii) Catedral de Beja, que encerra um mistério por ser a localização primitiva da Igreja de Santiago Maior, com elementos dos séculos XVI a XVIII, e um riquíssimo património. Todos esperamos, aliás, que a diocese continue a ser modelo de defesa do Património Cultural, na linha de D. Manuel Falcão (1922-2012). A (xxiv) Sé Catedral de Faro é emblemática, sendo erigida nas fundações de uma Basílica paleocristã e de uma mesquita – chegando aos nossos dias como exemplo de convergência de tempos e culturas. Mas no Algarve, não esqueçamos a antiga (xxv) Sé de Silves, maioritariamente gótica do século XV, um dos mais importantes exemplos da nossa arte religiosa. Em Angra do Heroísmo (Terceira), a (xxvi) Sé imponente invoca o Santíssimo Salvador, é do século XVI (1570) e constitui mais uma referência essencial. A (xxvii) Sé do Funchal data da passagem do século XV para o século XVI tem também um grande interesse artístico, tendo a particularidade de ter sido sede da primeira diocese global, donde saíram as outras dioceses do mundo de língua e de influência dos portugueses… Um Roteiro riquíssimo de Catedrais fica ao nosso alcance para deleite e cultivo do património, da herança e da memória…
E como habitualmente, depois de termos lembrado José Régio, quem melhor do que Florbela Espanca para nos acompanhar na fantástica Évora?…
«Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas … Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!
Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!
Évora! … O teu olhar … o teu perfil …
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me alvoroça!
… Em cada viela o vulto dum fantasma …
E a minh’alma soturna escuta e pasma …
E sente-se passar menina e moça … »
Agostinho de Morais

A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
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