
TU CÁ TU LÁ
COM O PATRIMÓNIO
Diário de Agosto * Número 15
Hoje citamos Joaquim de Carvalho, um dos espíritos mais brilhantes da cultura portuguesa do século XX sobre a relação de Antero de Quental com Oliveira Martins: «Em vez de uma amizade que se alimentasse da identidade afetiva, da fusão de duas almas, houve entre os dois fraternos amigos o sentimento de que mutuamente se completavam na diversidade e independência dos seus seres. Perdidas as cartas de Oliveira Martins, não é fácil determinar em que é que Antero lhe foi intelectualmente tributário; sabemos apenas que o historiador deveu ao poeta-filósofo indicações bibliográficas e traduções do alemão, aliás publicamente confessadas no Helenismo e a Civilização Cristã, sendo lícito suspeitar que foi Antero quem o conduziu ao germanismo e lhe sugeriu a leitura de Cournot, cuja influência foi capital na sua conceção filosófica da história, designadamente pela teoria do acaso, uma das grandes teses que opôs à ideologia histórica da geração romântica.
Na ordem positiva, de sugestão de ideias ou de factos, faltam-nos, pois, elementos seguros; porém, se passarmos para a ordem espiritual, o mútuo tributo surge-nos com alguma claridade. Oliveira Martins admirou em Antero o homem moral e o artista, o espírito subtil e amante das ideias coerentes, e o crítico desapaixonado que lhe discutia as ideias, apontava as omissões ou deficiências e apreciava o estilo. A sua influência foi, pois, moral e intelectual; Martins, pelo contrário, foi para Antero o tipo da ação viril, do pensamento pragmático do homem forte capaz de pensar, de querer e de atuar. Como notou António Sérgio num ensaio famoso sobre Martins, o espírito do historiador trabalhava sobre o concreto. Menos especulativo que Antero, com menos experiência e perspicácia da vida interior, surdo, de certo modo, às antíteses dolorosas que ela desperta, excedia-o grandemente no sentido pragmático, na acuidade da visão prática e na formidável capacidade de trabalho ordenado e metódico. Antero cedo o reconheceu, e com espontânea sinceridade lhe confessava que o seu convívio o chamara “à realidade viva, humanamente natural, que por um insensível mas contínuo desvio, o meu temperamento místico tende sempre a afastar-me, em não havendo influências externas que me chamem à razão — e V. é para mim essa razão, a razão… como direi?, a boa razão numa palavra, positiva, real, justa”».
E aproveitemos para ouvir o Poeta micaelense.
À VIRGEM SANTÍSSIMA
Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia.
Num sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…
Um místico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só ternura
E da paz da nossa hora derradeira…
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa.
E deixa-me sonhar a vida inteira!
Agostinho de Morais

A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
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