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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

‘O chão do Loureiro’ de Carlos Botelho e o esplendor da verdade atenta. 

 

Pedir a alguém que nunca se distraia, que escape sem repouso aos equívocos da imaginação, à preguiça dos hábitos, à hipnose dos costumes, é pedir-lhe que viva na sua máxima forma. É pedir-lhe alguma coisa muito perto da santidade, num tempo que parece apenas perseguir, com cega fúria e glaciar sucesso, o divórcio total entre a mente humana e a faculdade da atenção que lhe pertence.‘, Cristina Campo, Gli imperdonabili

 

Cristina Campo acusava a arte contemporânea de fazer predominar a imaginação – ‘contaminação caótica de elementos e de planos’. E na pintura ‘O Chão de Loureiro’ (1937), talvez Carlos Botelho (1899-1982) escolha a atenção contra a imaginação.

 

Carlos Botelho constrói o tempo e o espaço através da observação atenta de uma realidade precisa. E revela por isso e simplesmente a pura beleza do que via através da janela do seu atelier. 

 

Nesse mesmo ano de 1937, Carlos Botelho viu em Paris uma retrospetiva de Van Gogh:

 

Toda a sua técnica e todo seu espírito me influenciaram enormemente. De Van Gogh, a minha pintura, ficou marcada sobretudo na parte técnica, porque eu nunca poderia herdar de um grande homem, como era o Van Gogh senão uma parte técnica porque um espírito, cada um tem o seu.’, Carlos Botelho

 

O espírito da pintura ‘O Chão do Loureiro‘ vem através de uma sensibilidade atenta. A matéria da tinta espessa acentua a presença das velhas paredes e telhados. A ausência da pessoa humana enriquece a força de uma atmosfera matinal, outonal e silenciosa. A distorção de alguns volumes, dimensões e perspetivas revela o humor dos folhetins que Botelho desenhava no Sempre Fixe e Ecos da Semana. A expressividade deste realismo atento, culminou numa série de pinturas ricas em cor, movimento e intensidade, feitas em 1939, em Nova Iorque. 

 

Sendo assim, Carlos Botelho em ‘Chão do Loureiro‘ entende profundamente os ritmos, as hesitações e os volumes das formas e dos espaços urbanos. A cor, essa, é colocada sempre justa, de modo a fazer prevalecer um singular ambiente tonal. É uma pintura de uma devota aceitação. O espírito do pintor aparece, por isso, naquilo que se abre perante um olhar límpido e autêntico. 

 

Ana Ruepp

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