auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

Categories

Artigos de Opinião

“SANGUE SÁBIO”

  
    Flannery O’Connor com os seus pavões


Flannery O’Connor (1925-1964) é uma das grandes escritoras norte-americanas do século XX, cujo centenário assinalamos. O seu estilo é marcadamente original, representando, enquanto natural dos Estados do sul, um sinal especial de dureza e sinceridade, perante a presença dogmática protestante dos seus conterrâneos. Lê-la constitui um desafio exigente quer pelo carácter complexo dos seus temas, quer pela construção narrativa e pelo sentido que atribui ao destino dos seus protagonistas. O seu catolicismo leva-a a confrontar a realidade e a Graça, os acontecimentos e o mistério. O que caracteriza o seu pensamento é a capacidade de encarar o mundo do avesso. A consciência do mal e o pecado tornam-se não apenas um sobressalto, mas uma descoberta da humanidade. Como Mauriac, Bernanos ou Graham Greene, a escritora sublinha as situações limite, percebendo o mundo imperfeito. Deus escreve direito por linhas tortas, lembrou-o Claudel no pórtico de Le Soulier de Satin. De facto, Flannery preocupa-se, antes de mais, com a observação, a especificidade, a credibilidade, a verdade, ou seja, com a não indiferença perante o mundo e os outros, não ignorando o que parece ser simples e superficial, porque tudo lhe permite compreender a essência da vida. Por isso, alguém disse que foi apenas uma contadora de histórias, tendo sido muito mais.

Demarcando-se do “grotesco” sulista do “Bible Belt” e da ortodoxia luterana, dominados pela subalternidade, O’Connor vai assumir uma atitude inconformista, deixando nítido, como salienta Pedro Mexia no Prefácio a Um Diário de Preces, que «o “dogma” cristão é uma hipótese possível sobre o “mistério” da humanidade. De modo que quanto mais dogmático mais enigmático, ou seja mais verdadeiro». Quando afirma que O Céu é dos violentos,  sabe que “o amor deve ser pleno de fúria”, porque a guerra celestial propõe-se abandonar a sombra e procurar o sol. Cristo não traz a paz mas a espada, dizem os Evangelhos. E entre o amor dos seus pavões, as tarefas da quinta, os cuidados da doença incurável, a romancista lê S. Jerónimo e quantos a possam esclarecer sobre os mistérios da Graça.

Afinal, os temas que talvez não fizessem sentido nos dias de hoje abrem os olhos. Em lugar da placidez da indiferença, importava a luta contra os paradoxos da vida. E que é a literatura senão essa marca inesperada que abre horizontes onde menos se espera? E compreende-se que a protagonista do conto Por que motivo se rebelam os pagãos procurasse na leitura a revelação do que a intrigava. “Não era raro (…) deparar-se com uma passagem estranha sublinhada num livro que o filho deixara aberto algures e ficar a cismar sobre ela dias a fio. Uma passagem que encontrara num livro por ele deixado no chão da casa de banho no andar de cima ficara-lhe sinistramente gravada no espírito”. Em Sangue Sábio, o seu primeiro romance (1952), um jovem, neto de um pregador ambulante, abandona a fé ao servir no exército durante a Segunda Guerra Mundial. Ao regressar ao Tennessee, compreende a força da transcendência na comunidade, mas decide combatê-la através da fundação da sua “Igreja Sem Cristo”… Eis o método de Flannery O’Connor: partir da contradição para chegar à essência das coisas, oferecendo-nos sempre o que nunca nos pode deixar indiferentes. 

GOM

2 comentários sobre ““SANGUE SÁBIO”

  1. Caro Senhor Professor Doutor Guilherme de Oliveira Martins,
    Obrigada pelo seu texto a Flannery O’Connor e peço desculpa se comento extensivamente. Neste último caso, avisem-me, por favor.
    Apenas parcialmente estou de acordo com ela. Aceito toda a diversidade humana e todas as contradições como caminho para ir mergulhando no Transcendente, mas para mim, mulher casada (canonicamente), mãe e avó, educada numa família católica, o meu Centro Unificador foi a nossa Santíssima Mãe e seu filho Jesus. Ele uniu consciente e inconsciente, humano e Transcendente, masculino e feminino. Isso foi há 2000 anos. Quantos dos seus seguidores terão conseguido este diálogo e integração?? O maior mandamento que nos deixou foi o do Amor, não hesitando em expulsar os vendilhões do Templo. Sua mãe terá sido a âncora e se tivesse falado mais, poderia ser de Amor maternal, de natureza, de árvores, de montanhas, de prados e de cursos de água. Esta sabedoria que nasce espontaneamente, como se fosse da Terra, é absolutamente essencial no mundo atual.
    É muito difícil a integração de que falei, o homem é mais racional e intelectual, e precisa portanto de dialogar com a sua parte feminina, como nós mulheres precisamos de dialogar com a nossa parte masculina. No caso ideal de um casal, um pode complementar o outro.
    Nas condições atuais, foi-me tão difícil re-encontrar Cristo. É que o Cristo do meu inconsciente tinha os braços abertos para abraçar. Não o encontrava em sítio nenhum, ia a Igrejas, a Sacristias…Viajei centenas de quilómetros e estava crucificado em todo o lado. Mas Ele existia no meu inconsciente. Eu tinha a certeza. Muitos anos mais tarde encontrei-o lá no fundo do inconciente, era o do meu primeiro catecismo, tinha os braços abertos e a legenda: “Deixai vir a mim os pequeninos”.
    Lembro apenas um pequeno extrato de oração de Flannery O’Connor, 2013:
    “Quero amar:
    Ó Deus, por favor, ajude-me a clarear a mente.
    Por favor, limpe.
    Peço-Te um amor maior pela minha Mãe Santíssima e peço-lhe um amor maior por Ti.
    Por favor, ajude-me a descer às profundezas e encontrar-Vos.”

    1. Cara Amiga Aldina
      Muito obrigado!
      O seu texto é um contributo muito bom, que desde já agradecemos.
      Flannery O’Connor é uma autora que nos enche espiritualmente com os seus textos e reflexões.
      Nunca podemos ficar indiferentes, quer nas suas orações quer nas suas narrativas.
      Os bons espíritos encontram-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *