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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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SENTIDO DE ESPETACULO NA PINTURA E DESENHO DE ALMADA

Acrobatas de Almada Negreiros
“Acrobatas” de Almada Negreiros, 1947

A exposição do acervo de obras de Almada Negreiros no Museu do Chiado – Museu de Arte Contemporânea, apresentada por Paulo Henriques, diretor do Museu, para além da qualidade e mestria das obras em si, contem como que uma dimensão “de espetáculo” que é inerente a toda a obra de Almada, seja ela expressa nos formidáveis frescos e pinturas que dominam os edifícios e as cidades, seja em desenhos e quadros como aqueles que o MAC-MC agora expõe.

São oito obras de uma extrema modernidade. Tal como refere Paulo Henriques, “é uma pintura de síntese do seu (de Almada) pensamento artístico: o desenho omnipresente, figuras neo-cubistas num interior sombreado, alongadas formas expressionistas recortadas em texturas gráficas numa atmosfera de sombras e luz”. Curiosamente ou talvez não, das oito obras, três relacionam-se com expressões diretas ou indiretas de espetáculo: “Arlequim com Mulher”, “Bailarina Descansando de Pé”, “Acrobatas”.

Ora, sabemos bem como a dimensão do espetáculo a nível de personagens e ambiente surge recorrentemente na obra de Almada, e tanto na expressão plástica como na expressão poético-literária e muito particularmente na expressão teatral: e não é só no óbvio “Pierrot e Arlequim – personagens de teatro”, mas também na Boneca e no Boneco, bonifrates que assumem a vida em “Antes de Começar”, nas coreografias do “Deseja-se Mulher”, na intervenção insólita do “Árbitro de futebol” na revolução de “S.O.S.”, na companhia de teatro de “O Público em Cena”…

E surge também nos numerosíssimos textos de análise estética do espetáculo e do fenómenos teatral, que tenho aqui referido e de que citarei agora, como obra – síntese de pensamento estético, “O Pintor no Teatro – À Memória do muito querido companheiro Frederico Garcia Lorca, por excelência a vocação de teatro em nossos dias”, onde se lê: “Não conheço pintor, vivo ou morto, que na palavra Teatro não fosse como em coisa sua: o Teatro é nosso, dos pintores, o escaparate de todas as artes”.

São textos e exemplos que se generalizam a toda a obra de Almada. Não me canso de lembrar a interpretação admirável do vicentino “Todo-o-Mundo e Ninguém”, em postura rigorosamente igual na Faculdade de Letras de Lisboa. E já agora, ainda cito, aqui no contraste, a ambiguidade entre o crime e o sonho da peça “Aquela Noite”.

Afinal, todo o teatro de Almada é  como o teatro deve ser: eminentemente “espetacular”, isto é, texto realizado em espetáculo, logo necessariamente plástico na sua dinâmica e no seu movimento… mesmo quando as pinturas por definição não se movem!

 

DUARTE IVO CRUZ

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