7. DE DINAMENE A LUÍS DE CAMÕES
Gritaste-me o nome pelo vento e ao mar
p´ra que chegasse ao céu tua agonia,
a voz da saudade que eu não ouvia,
envolta em morte, sem poder gritar…
Aqui não se diz, não se exclama, nem
memória dessa vida se consente:
na morte o que mais dói é ser silente,
e segredo é tudo o que a morte tem.
Nem o pensar em mágoas me adormece
maginação que já não posso ter…
Nem lembrança, pois já não sei esquecer,
o coração me aquece ou arrefece…
Gritaste-me “Não fujas, Dina…! , e eu ouvi-te,
talvez dissesses …mene ! , mas perdi-te…
8. AINDA DE DINAMENE A LUÍS
Há entre nós uma lonjura sem caminho
possível de, no tempo, percorrer:
como quem diz que já não pode ser
me apago em tua mente, de mansinho…
No mar revolto, perdida me vias,
e em desespero de sonho me chamavas
do clamor das ondas, frias e bravas,
em que, na noite escura, me perdias…
E quando a louca esp´rança se esvaiu,
sentiste que o silêncio não mentiu
e era fantasma só minha presença…
Nesse terreno assento onde ficaste,
já morreu a lembrança que apagaste,
como saudade que perdeu pertença…
Foi pelo meu 14º aniversário, em Janeiro de 19…, que, na pilha de livros com que familiares e amigos – falando várias línguas e saboreando gostos diversos – todos os anos respondiam ao meu gosto da leitura, que recebi a fresquíssima edição, pela Livraria Clássica Editora, de sonetos de Luís de Camões, escolhidos e anotados pelo Dr. João de Almeida Lucas, Vice-Reitor do Liceu D. João de Castro. A colectânea incluía, com os nº 38, 39, 40, 41, 42 e 43, seis sonetos atribuídos ao “Ciclo de Dinamene”, a escrava chinesa, amante do Poeta, à qual ele dera esse homérico nome, que dizia poder e ânimo, desaparecida num naufrágio, junto à foz do rio Mekong, da nau em que ambos seguiam para Goa… Um dos sonetos do ciclo ficou celebérrimo e começa assim: Alma minha gentil que te partiste… É o nº 42, e roubei-lhe o verso memória desta vida se consente, pondo-lhe dessa em lugar desta… Ao soneto ali com nº 40 roubei o verso como quem diz que já não pode ser… Com todos eles fui conversando, inspirado sobretudo pela figurinha ténue e imensa de uma escrava chinesa que imaginei amando e experimentando um etéreo que não conhece, e cujo retrato camoniano contemplo no soneto nº38, que acaba assim:
um escolhido ousar; uma brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento:
Esta foi a celeste fermosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.
Camilo Martins de Oliveira
