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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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UM SOBRESSALTO CÍVICO

  


Ao falar de identidade e de património cultural, José Mattoso é exemplar ao apontar a recusa das simplificações, tantas vezes grotescas. “As tentativas para fazer coincidir os Estados com áreas culturais resultaram normalmente de ideologias totalitárias”. Além disso, a  “tendencial redução da produção cultural a um centro único tem como consequência perversa o atrofiamento do dinamismo e da criatividade do todo nacional”. Hoje, a nossa História passou “a poder narrar um passado real, com ganhos e perdas, com avanços e recuos, fidelidades e traições, sucessos e insucessos, unanimidades e contradições; e apesar de tudo como um passado constitutivo da coesão nacional, pelo simples facto de ser um passado comum e de resultar de uma experiência vivida em conjunto ou tornada memória coletiva”. Infelizmente, a ignorância histórica vai sendo cultivada, pela repetição de inverdades, que escondem preguiça e oportunismo. Um povo de Finisterra, como o nosso, caracteriza-se por ser um cadinho de influências. Não nos podemos esquecer da nossa saga de emigrantes pelo mundo, enquanto fomos terra de acolhimento. Só a ignorância pode deixar-nos arrastar por mistificações que apenas conduzem  a uma esquizofrenia ciclotímica que impede a perspetiva positiva sobre as tarefas do presente. Não podemos construir uma sociedade que recusa a diversidade e a abertura.  

E destaco os cinquenta anos da independência de Cabo Verde ocorridos no passado dia 5. A revista “Claridade”, de Baltazar Lopes, Jorge Barbosa, Manuel Lopes e Aurélio Gonçalves, publicada em S. Vicente, entre 1936 e 1960, por entre dificuldades e vicissitudes, continua a ser uma marca essencial. O programa, segundo Manuel Lopes (1907-2005), era “fincar os pés na terra cabo-verdiana”, tendo influência muito significativa no sentido de uma autêntica impregnação cívica e na procura das raízes mais fundas da cultura cabo-verdiana – “em contacto com a terra os pés se transformaram em raízes e as raízes se embeberiam no húmus autêntico das nossas ilhas”. Aí esteve a modernidade crioula, ligada ao que era próprio e genuíno e ao que era universal na busca da emancipação… “Você Brasil, é parecido com a minha terra. / As secas do Ceará são nossas estiagens, / com a mesma intensidade de dramas e renúncias” – disse Jorge Barbosa. E se falamos de identidade crioula, não podemos esquecer a raiz etimológica da palavra que tem a ver com um permanente ato de criação. Com emoção, acompanhamos o percurso de Amílcar Cabral e o seu amor pela língua portuguesa, numa dinâmica insular, atlântica, universalista. Ao relermos o romance “Chiquinho”, de Baltazar Lopes, cuja recente reedição foi um sucesso editorial, encontramos o símbolo literário de um povo e de uma cultura, sob a evocação da generosa “morabeza”. Leia-se “A Construção da Identidade Nacional – Análise da Imprensa entre 1877 e 1975” (Praia, 2006) de Manuel Brito-Semedo. Num tempo de debate sobre as questões na nacionalidade. Precisamos da lição da experiência e do conhecimento. Perceba-se que a Constituição da República tem de ser um fator de confiança e coesão. Só se preserva e defende o património cultural partindo da diversidade e da tradição. Uma nação antiga protege-se salvaguardando a identidade e a diferença. Não esqueçamos a memória viva de um povo que sempre soube ultrapassar os gritos do momento e as tentativas de fazer prevalecer as lógicas unilaterais do tempo. Não se corra atrás do imediato.

GOM

Comentário sobre “UM SOBRESSALTO CÍVICO

  1. Obrigada por este magnífico texto!
    Falando de Cabo Verde que é tão longe da minha terra natal (neste país), sinto tal e qual o que os autores referidos sentiam “em contacto com a terra os pés se transformaram em raízes e as raízes se embeberiam no húmus autêntico das nossas ilhas”. Talvez também eu tenha nascido numa ”ilha” neste país Portugal!

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