Compreender Camões é lê-lo no que tem a ver connosco. E Jorge de Sena disse no Dia de Portugal de 1977, que importava «dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência». O poeta de Perseguição deixava, assim, claro que, «sendo Camões o maior escritor da nossa língua, que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo». No fundo, Camões é «o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo». Fora de qualquer tentação de autossatisfação ou de ilusão, «ninguém, como Camões, desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exatamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares». No essencial, «ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa». Eis a legitimidade própria para considerar Camões como um verdadeiro símbolo, em que o sentido crítico sobreleva quaisquer argumentos de oportunidade. E, como Sena disse ao seu amigo Ruy Cinatti, “Viver é coisa de mar, cheira a horizonte”. Ora, quanto a Camões, o essencial é isto: «Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E não esqueçamos que Portugal é, como Camões, a vida pelo mundo em pedaços repartida».
E já Camilo Pessanha em 1924, há exatamente um século, neste mesmo mês de junho dissera: “Tem-se debatido desde há anos a questão de se Camões residiu ou não em Macau, se esteve ou não preso no tronco da cidade, se aqui desempenhou ou pôde ter desempenhado as apagadas funções de provedor dos defuntos e ausentes. A polémica há de decerto renascer mais animada algum dia; e provável é que o problema venha a decidir-se finalmente pela negativa. É a sorte de todas as tradições consagradas…”. Mas o genial poeta solucionava o mistério do modo mais poético: “Há, é certo, lendas e lendas, tradições e tradições: umas sublimes, outras grotescas. Estas são efémeras, aquelas eternas. Basta como exemplo da indestrutibilidade destas últimas o da lenda heroica da Grécia”. Também aqui, mais importante que tudo, nessa simbólica Gruta de Camões, importaria não ficar pelo pormenor biográfico, mas sim considerar o culto mesmo do Poeta, que simboliza a Pátria, como nenhum outro povo designou, num sentido aberto e universal, e as suas palavras são imortais. Mais do que discutir se esteve nesse local sagrado, o certo é que está!
GOM
Obrigada!
Declamava Os Lusíadas de memória. Agora já de poucos cantos me lembro.
Camões, um homem que se revelou inteiro! (quase:), soube de umas historiazinhas aquando da minha última visita a Constância:).
“Mas sim considerar o culto mesmo do Poeta, que simboliza a Pátria, como nenhum outro povo designou, num sentido aberto e universal, e as suas palavras são imortais.”
Todas?
“Mas o genial poeta solucionava o mistério do modo mais poético: “Há, é certo, lendas e lendas, tradições e tradições: umas sublimes, outras grotescas. Estas são efémeras, aquelas eternas. Basta como exemplo da indestrutibilidade destas últimas o da lenda heróica da Grécia”. No entanto, serão todas as palavras vindas da Grécia, imortais? Permita-me que transcreva também as palavras de Mirceia Eliade em 1956:
“Por fim, há ainda uma nota específica que é importante: o mito é assumido pelo homem enquanto ser total, não se dirige apenas à sua inteligência ou à imaginação. Quando não é assumido como uma revelação de mistérios, o mito degrada-se, obscurece-se, transforma-se num conto ou numa lenda….não é vivido pelo homem total e, por conseguinte, não consegue transformar uma situação particular em situação exemplar, universalmente válido.” Tanto aos mitos como às lendas, lhes falta a “exemplaridade e a universalidade”.
«A melhor prova da extraordinária cultura de Camões está na sua obra, a qual ostenta uma extensão, profundidade e solidez de conhecimentos extraordinárias. Os primeiros biógrafos e comentadores foram unânimes em reconhecê-lo e os quase quinhentos anos de exegese sobre a obra camoniana são uma forma reiterada de lhes darmos razão». CNC