COMIGO ESTÃO OS OUTROS

1.
Com quem conversamos quando ficamos calados mais tempo?
Há telhados e portas, noites e janelas, e por elas aquele anjo que já me perguntou no dia anterior se o queria amanhã à mesma hora.
Claro que sim. Disse. Sou-te imprescindível. Ou o inverso. Propomo-nos, enfim. Como as cerejas nas prosas. Propomo-nos.
E um pouco de sal?
É que, às vezes, tenho o coração dissuadido.
São muitos os pormenores do mundo, tantos que até durmo desperta.
E logo nós em cima do tapete que voa, tu, anjo, e eu, janela fora
e poderoso é o fôlego face ao tempo predador do tal sal, e tu, anjo na conversa já só alertas que a sede com bagagem é pior e que levo muita.
Entendo, mas para lá do invólucro, tudo pesa pouco. Respondo.
Acresce que conheço as lesmas tão bem como tu, são ranhos arrastados de subjetividade com pouco interesse na versão adulta,
como se afinal, ao longo de todos esses anos de errância, tivesse havido um destino.
E voamos, e a nossa vitória imensa consiste em ver,
juntos e afadigados, eu em ti e tu em mim e nós um único
no tudo da ocasião festiva que bem se presta ao selo de qualidade, pois nos tornamos cúmplices por achadores
nas horas dos sem palavras quando tudo, tudo no ali e no agora nos é impertencente.
Mas acresce sempre uma razão,
uma razão que me habilita a viver com ou sem exército desertado:
é que comigo,
comigo estão os outros
aqueles que não têm senão a si mesmos para contar sonhos, saguões, pesares e fomes das sobremesas da vida
e que poderiam ler meus versos se eu os escrevesse que,
mesmo pobres,
existiriam no vaso de uma janela por aí e também,
por vezes, na minha
2.
Com quem conversamos quando ficamos calados mais tempo?
Convencida de que são meu centro
tenho amigos sem sapatos e sem relógios e sem casas e sem pais.
Ninguém os conhece.
Saem à noite das prisões.
As sentinelas sabem como ser
3.
Com quem conversamos quando ficamos calados mais tempo?
Podemos viver quase por completo na imaginação.
Lembra-te que por seres cego
não me podes tocar com teu olhar
mas porque te vejo
não preciso de mais nenhuma proteção
Teresa Bracinha Vieira
Obrigada pela sua crónica Sra Dra Teresa Bracinha Vieira!
Vou aludir apenas à sua primeira e levemente à última frase:
“Com quem conversamos quando ficamos calados mais tempo?”
Converso com os meus pais, que continuam vivos dentro de mim, bem como com a minha família, sobre:
1. a travessia do Mediterrâneo por migrantes e refugiados e no que os força a isso.
2. os 673 milhões de pessoas em todo o mundo que passam fome e na aberrante quantidade de 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos que são desperdiçadas anualmente e que poderiam, alimentar as pessoas que sofrem de fome.
3. o tráfico humano, sobretudo de crianças, com maior incidência nas de sexo feminino, traficadas para fins de exploração sexual. E também nos outros traficados, crianças de ambos os sexos, mulheres, pobres…
4. os 840 milhões de mulheres que já sofreram violência sexual ou física (ONU) e todas as outras, que vivem sem dignidade humana.
5. A enorme mortalidade infantil, a altíssima necessidade de emigração, as miseráveis condições sociais e económicas, a guerra, as prisões políticas e não só, que ocorreram durante o Salazarismo.
6. A incógnita do futuro das minhas netas e de outros/as jovens como elas.
Na sua última frase diz: “mas porque te vejo não preciso de mais nenhuma proteção”. Aqui, apenas substituiria o “te” por vos.
Senhora Doutora Aldina Brás:
Muito grata pela atenção e pelas suas palavras.
De facto, os anjos são com quem desejamos e escolhemos falar.
As realidades que refere são todas as que nos envolvem com os outros se deles nunca nos esquecermos como dever de não nos esquecermos do que é humano.
Somos parte de algo muito grande, profundo e avassalador, mas há o amor, há a compaixão, há o ser cristão.
Tranquilo fds
TBV
Gosto do texto e do comentario de Aldina Braz
Grata pela atenção sentida nas suas palavras.
Boas leituras.