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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    “Cristo de São João da Cruz”, de Salvador Dalí.


As tentações da Igreja
 

Terminada a festa do Carnaval, os cristãos entram na Quaresma, que consiste em quarenta dias de mais profunda meditação, de mais intensa conversão, de amor mais vivo, mais activo e perfeito, em ordem a poderem celebrar com mais dignidade a Páscoa do Senhor enquanto passagem da morte à vida, à plenitude da vida, a vida eterna.

De modo significativo, no primeiro domingo da Quaresma, lê-se sempre a passagem do Evangelho referente às tentações de Jesus. Ora, é importante sublinhar que as três tentações estão todas referidas ao poder: poder económico, poder religioso, poder político… Jesus, antes de iniciar a sua vida pública, teve de decidir se queria ser um Messias político, do poder, ou um Messias do amor, do serviço. Foi por esta segunda alternativa que seguiu: Ele vinha para anunciar o Evangelho, notícia boa e felicitante, a melhor notícia que a humanidade ouviu ao longo da sua história: Deus é bom, Pai-Mãe, e só quer o bem, a alegria, a felicidade, a plena realização de todos… Por isso, a mensagem era clara: “Eu não vim para ser servido, mas para servir”, e servir até dar a vida.

Assim, a única verdadeira tentação, segundo o Evangelho, é a do poder, no sentido do domínio sobre os outros, humilhando, oprimindo, discriminando, obrigando à fome, à violência, à guerra, à morte, com uma cultura imperialista e, consequentemente, militarista…

Evidentemente, em qualquer sociedade o poder é necessário, inevitável. Toda a questão consiste em saber como é que ele é exercido e com que finalidade. Quantos se lembram que Ministro, na sua etimologia, significa pura e simplesmente servente, aquele que serve? Primeiro-Ministro é o que está à frente no serviço. Jesus disse aos discípulos, portanto, também ao papa, bispos, cardeais, padres: “Sabeis que os chefes das nações governam-nas como seus senhores. Não seja assim entre vós; pelo contrário, quem quiser fazer-se grande entre vós seja vosso servo”.

Jesus renunciou ao poder enquanto domínio, mas é referido frequentemente no Evangelho que ensinava com autoridade. A palavra autoridade vem do verbo latino augere, que significa aumentar. Ter autoridade tem, portanto, a ver com fazer crescer, aumentar no ser. Cá está: servir. O poder legitima-se enquanto serviço de fazer crescer na liberdade, na justiça, na dignidade, no bem comum…Presidentes, ministros, bispos, jornalistas, pais, professores, padres, polícias… exercem legitimamente o poder enquanto autoridade, quando ele faz crescer… Assim, não são apenas os súbditos que devem obedecer. A palavra obediência também tem a sua origem no latim: obaudire, que significa ouvir. Então, os que têm poder legítimo, começando pelos pais, são os primeiros a ter de obedecer, isto é, a ter de ouvir aqueles que precisam que lhes seja feita justiça, ouvir a própria consciência, ouvir o apelo de todos aqueles que clamam por mais liberdade e dignidade…

Não há superiores e inferiores. Há apenas homens e mulheres iguais em dignidade. E alguns estão constituídos em poder, que devem exercer como serviço a essa dignidade inviolável… Aqui, questão substancial é haver poder formal não acompanhado da necessária autoridade, competência pessoal.

Quando se fala em Igreja, é difícil não se ser, por princípio, imediatamente confrontado com uma situação de desconforto. Este mal-estar não é pertença exclusiva de ateus ou agnósticos: os próprios cristãos, mesmo cristãos católicos, podem ter uma má relação com a Igreja. De facto, a Igreja aparece-lhes frequentemente como uma hierarquia soberana e longínqua, que comanda, que proíbe, não se percebendo muitas vezes se essas ordens e proibições querem realmente o bem das pessoas ou, se, pelo contrário, não são expressão disfarçada de interesses económicos e políticos, enfim, do poder… Lá está o poder sacro com os seus  abusos: abusos de poder, de consciência, sexuais…

Num primeiro momento pelo menos, a Igreja surge como uma hiperorganização, tendo à frente um monarca (o Papa), com os seus ministros (cardeais da Cúria romana, a famosa “corte”, que tantos dissabores causou a Francisco), e também altos funcionários (núncios ou embaixadores do Vaticano, espalhados pelas capitais dos Estados do mundo, e bispos) e ainda médios e pequenos funcionários (monsenhores, cónegos, padres)…

Mas não devia ser assim. De facto, a palavra igreja em português (iglesia em castelhano, église em francês) vem do grego Ekklesía. Ora, a Ekklesía era a assembleia do povo reunido. No alemão (Kirche), no inglês (Church), etc., a origem é outra: Kyrike (forma popular bizantina), com o significado de “pertencente ao Senhor” (Kyrios) e, por extensão, “casa ou comunidade do Senhor”. De qualquer modo, na dupla etimologia, a Igreja, no Novo Testamento, significa a assembleia daqueles que acreditam em Jesus, que crêem nele como o Messias e se tornaram seus discípulos, querendo, portanto, segui-lo, fazendo durante a vida o que ele fez e confiando nele na própria morte, esperando também a plenitude da vida em Deus, a vida eterna. A Igreja desde o início considerou-se a si mesma como a assembleia dos fiéis a Cristo, dos que pertencem ao Senhor: o sinal dessa pertença era o baptismo e reuniam-se, celebrando, na Ceia, a sua memória, até que ele venha.

Evidentemente, sendo constituída por homens e mulheres, a Igreja precisou de dar-se a si mesma o mínimo de organização. Por isso, nela, há diferentes funções e serviços. A palavra correcta é precisamente serviços. Significativamente, o Novo Testamento não fala de hierarquia (poder sagrado), mas de diakonia, que quer dizer ministério, serviço (mas, repito, também os Ministros não esqueceram já que ministro é aquele que presta um serviço?).

Que é que isto tudo quer dizer? A Igreja não é, na sua raiz, uma hiperorganização, mas assembleia convocada por Deus e reunida em Jesus, o Cristo. Então, o papa, antes de papa, é cristão; o bispo, antes de ser bispo, é cristão, um seguidor de Cristo; um cardeal, um cónego, um padre são discípulos de Cristo, que têm uma missão de serviço. Que devem servir, precisamente como qualquer cristão. Não há de um lado a hierarquia que manda e do outro os cristãos leigos que obedecem. Há sim a comunidade dos que acreditam em Jesus, que procuram ser seus discípulos e que obedecem uns aos outros, escutando-se uns aos outros, no Espírito Santo, e que prestam serviços uns aos outros e a todos as pessoas, segundo os dons e as tarefas que foram dados a cada um para bem de todos.

Neste sentido, não se acredita propriamente na Igreja; o que o cristão faz é professar e praticar a fé em Jesus e no Deus de Jesus em Igreja, a comunidade dos que acreditam.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia 
Sábado, 28 de Fevereiro de 2026

3 comentários sobre “CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  1. Obrigada Senhor Professor e Padre Anselmo Borges!
    Eu creio em Jesus, bastar-me-ia, acreditar na História, mas não é só isso.
    E creio na sua Mãe. Como poderia Ele ter nascido sem Maria? Como poderia Ele ter sobrevivido?
    A devoção Mariana, para além, de popular, tem uma natureza pan-religiosa e sincrética. A sua universalidade ajuda-nos a repensar a forma como compreendemos as relações inter-religiosas.
    Na perspetiva da arte sacra, Maria, passaria a ser retratada, a partir século XVII, como algo mais do que uma serva humilde e obediente, que aceitava passivamente a vontade de Deus. Maria também participaria ativamente do triunfo de seu filho sobre o mal (capitalismo) e a morte.
    Foi o pintor Miguel Cabrera e sua escola que difundiram uma iconografia de Maria que se tornou tão popular, a ponto de Ela começar a ser representada a atacar o dragão de sete cabeças do Apocalipse. Outra pintura concordante está no Museu da Basílica de Guadalupe, que não é uma representação da conceção de Miguel. Esta golpeia o dragão de sete cabeças com a ajuda de seu filho, Jesus.
    Atualmente, inúmeras imagens devocionais dessa imagem de Maria são veneradas por toda a América Latina e não só. Uma delas é muito famosa. É a Virgem de Quito, no Equador, também conhecida como Virgem do Apocalipse. Nalgumas pinturas, ela também foi representada como a Mulher do Apocalipse. E muitas réplicas dessas pinturas e estátuas são veneradas por toda a Cordilheira dos Andes. Para mim, é a luta da Mulher e de Jesus, contra o Mal (capitalismo) e a Guerra.

  2. O mal reside apenas no capitalismo? No marxismo que perseguiu cristãos e se declara ateu não há mal?

    1. Minha querida Lurdes
      Nem apenas nem sempre. Tente aprofundar os seus conhecimentos, por exemplo em: “Because of the Dollars” de Joseph Conrad.

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