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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Da amizade presencial, epistolar e virtual

É curioso que nos tempos contemporâneos a amizade tenha tendência a aprofundar-se e a consolidar-se através da internet e das redes sociais, mais do que pelo contacto físico regular. 

A tecnologia, com toda a sua variedade de plataformas de mensagens instantâneas, facilita e potencia esse relacionamento.

É também curioso constatar que a amizade virtual tem como meio de comunicação a escrita, à semelhança do que sucedia na amizade epistolar, por maioria de razão quando cartear cartas escritas era o meio ideal de relacionamento entre pessoas à distância.     

Em qualquer caso, a amizade presencial, mais clássica, comum e tradicional, caraterizada pelo relacionamento pessoal e partição de experiências e sentimentos no mesmo espaço, permite uma comunicação mais intensa e holística, porque mais bem posicionada para uma compreensão mais abrangente das pessoas na sua integralidade, através de interações diretas, frente a frente, linguagem corporal e oportunidades de partilhar encontros gastronómicos, passeios, viagens, jogos, eventos culturais ou outros.     

E se a amizade virtual é a forma mais moderna e atualista da amizade (e da conversação), há nela a distância física e geográfica, em paralelo com o que sucede na amizade epistolar. Porém, ao inverso desta, a amizade virtual possibilita a comunicação visual, a par da por escrito. 

Mesmo assim, em qualquer delas (epistolar e virtual), a distância permite-nos ver com quem comunicamos mais num plano espiritual, potenciando retratos imaginários, o que é diferente do contacto através do qual vemos, face a face, as pessoas que conhecemos. Esses retratos idealizados, se se aproximam com a realidade, a haver posteriormente contacto pessoal, podem consolidar e aumentar a amizade.   

Se o que se idealizou não corresponde com a realidade, sobrevém um choque, um desencanto, uma frustração, e a amizade arrefece e fina. Daí que haja pessoas que mantêm comunicação à distância com outras, que têm como amigas, não se esforcem para se conhecerem presencialmente. 

O contacto físico, pessoal e presencial está, tantas vezes, longe de corresponder àquilo que idealizámos de alguém, pois há pessoas que, falando, são repulsivas e que, escrevendo (por carta ou eletronicamente) são maravilhosas.     

Se na amizade presencial se aprofunda a intimidade e a partilha do relacionamento, na epistolar e virtual a interação ocorre apenas por carta ou através do ecrã, facilitando o imediatismo e a urgência, que nem sempre se supre.       

De todo o modo, entre a presencial, epistolar e virtual sempre prevaleceu a primeira, porque a mais clássica e transversal a todos os tempos. E porque à semelhança dos clássicos é “intemporal” e “está lá tudo”.     

Todas correspondem a épocas da nossa vida e, regra geral, vão perdendo significado, sendo poucas as que perduram.


Joaquim M. M. Patrício

Crónica Pluricultural n.º 260

Comentário sobre “Da amizade presencial, epistolar e virtual

  1. Belíssimo texto, que me confirma e clarifica opiniões, mas que gostava de ver ainda mais desenvolvido.
    Parabéns
    Cumprimentos

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