Viveu-se um período de júbilo criador, durante todo o século XIX e XX, até aos nossos dias, com numerosos inventos e descobertas que faziam crer que o progresso estava intimamente ligado ao desenvolvimento tecnológico e científico. Cientistas e sábios tornaram-se verdadeiros especialistas respeitados e, por vezes, idolatrados, pela sua autoridade e pelos seus trabalhos.
Ciências como a matemática, a física, a biologia, a fisiologia, a medicina, conheceram grandes avanços, o que foi extensivo a todas experiências de vanguarda no pensamento e nas artes, as quais, pela sua própria experiência de experimentação permanente, estão condenadas à sua transitoriedade, pois outras alternativas e respostas acabam por superar as anteriores.
À medida que o progresso avança, a roda do progresso vai andando cada vez mais depressa. E a sua velocidade também.
Constantemente surgem novos inventos, produzem-se novos objetos, programam-se novos sistemas que muitos já não acompanham nem assimilam, acabando por se marginalizar e ser excluídos.
Em estonteante velocidade, fazem-se e comercializam-se novidades que desatualizam e tornam obsoletos produtos que são lixo, porque aquele modelo já não se fabrica, mesmo que não compreendidas as suas vantagens e inconvenientes. Atente-se nos computadores, telemóveis, televisores, iPods.
Muitas pessoas, incapazes de acompanhar o andamento do progresso e da mudança, decidem afastar-se indo para o campo, longe do ruído ensurdecedor e velocista, mudando de vida, tentando ver e compreender as coisas simples e básicas, que Eça descreveu em A Cidade e as Serras.
A que se adiciona o crescente aumento das clivagens geracionais, fazendo com que pessoas de 40 anos estejam desatualizadas, desadaptando-se da linguagem dos filhos, que consideram, cada vez mais, os pais ultrapassados.
O aumento excessivo do consumo de estimulantes, antidepressivos, de drogas, dos que passam a maioria do tempo mergulhados na realidade virtual, e pensam dominar a tecnologia que não controlam e os torna infelizes, são sinais de que é cada vez menor o número de pessoas que têm uma relação normal com a realidade.
Se a civilização nos educa, também nos pode amputar autenticidade, havendo que saber escutar e limar os seus sinais de excesso, em combinação com o regresso ao básico, percebendo o que nos faz bem e mal, o que é necessário para manter o equilíbrio, usando a inteligência em prol da sobrevivência da nossa espécie, da natureza, dos animais e do cosmos que conhecemos.
Não significa que a nossa civilização vá findar. Mas sim que não podemos continuar a crescer permanentemente a um ritmo vertiginoso, sem capacidade para fiscalizar o que criámos e que pode ultrapassar o “monstro” que há em nós.
E há que estarmos atentos às crises, ao sinalizarem que atingimos um limite, como é travar e parar num sinal de Stop, dando-nos oportunidade para o início de uma nova era sem cisão entre o progresso e as pessoas.
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 263