Apesar do imenso poder das novas tecnologias digitais destinadas à escavação dos inconscientes, nós temos a capacidade de prefigurar um outro modo coletivo de existir.
Nós temos de entender a que época pertence o nosso sonho, porque o sonho em si é também uma mobilização coletiva e existe!
Todavia, hoje inculcam-nos a ideia de que vivemos dominados pela catástrofe, ultrapassada a utopia como sonho que envolvia a conceção de um mundo novo, a própria capacidade de acreditar na antecipação desse mundo e até um certo domínio do futuro; agora, querem-nos convencer de que só existe a catástrofe.
Tudo o que era estável e sólido se dissolverá. Assim é dito com o ódio de nos apavorar! O novo círculo frenético é o da destruição. Até a ideia de Universidade, enquanto esfera de cultura, há-de tornar-se descartável.
Todos já escutámos que o fim da História constitui o triunfo do mercado exatamente porque este último não tem História, não tem utopia. É um puro domínio do interesse individual sobre o geral.
Sensibilizam-se que os lucros não advêm apenas do trabalho, mas da exploração da vida em si, e essa realidade é notória na habitação e, nomeadamente, na saúde.
Há quem afirme que o crédito substituiu a utopia, já que realizou imediatamente o futuro no tempo do hoje.
Enfim, a época de superação de todos os conflitos geraria um crescimento infinito e absurdo e a política foi-se transformando em atos de mera gestão, o crédito em dívida e a utopia em distopia.
Mas nós não deixámos de sonhar, tentando agora entender a que época pertence o nosso sonho e qual a sua força nuclear para sobreviver ao estado de crise permanente que se vive.
Mas a crise não é apenas destino epocal.
O que está diante de nós é um tempo, e para ele desejamos uma expectativa, um fechamento, um momento de possibilidade, de aceleração infinitesimal nesta nova época antropológica que até envolve a desterritorialização.
Travemos a espetacularização, ajudemos a mitigar as alterações climáticas e o rasto de destruição das guerras.
Nós vivemos no presente e vivemos do nosso passado.
Todas as metáforas de alimentos nos saciam, entram-nos pelos dedos e descansam na medula da alma.
E nós, deixámos de sonhar?
Teresa Bracinha Vieira