‘The Architect is responsible to create the spirit of a thought. (…) It is essential that the Architect create works that are thought provoking, sense provoking, and ultimately life provoking. Or more precisely, life giving, to what appears to be at first inanimate materials.’, John Hejduk, Berlin Nights (In Pérez-Gómez, Alberto. 2016 “John Hejduk’s Critical and Poetic Architecture.” Timely Meditations, vol.1: Architectural Theories and Practices: 375-401.)
A Wall House #2 comprime tempo e espaço. É começo e fim.
A arquitetura de John Hejduk concretiza o enigma através da claridade do objeto e materializa poesia através da procura de um ser que é incompleto, que tem um corpo, sentimentos, pensamentos, vontades e desejos.
Para Hejduk é essencial que a arquitetura exija uma compreensão que ultrapasse o que está estabelecido. Para Hejduk a arquitetura pode trazer a redenção e permitir uma disponibilidade ao diferente e ao inesperado.
Alberto Pérez-Gómez no texto “John Hejduk’s Critical and Poetic Architecture.” (2016) escreve que o trabalho de John Hejduk, para além de constituir uma crítica radical aos habituais meios de representação, é uma revelação absoluta do que é e do que existe, dando forma humana à mais pura
verdade.
Na opinião de Pérez-Gómez, Hejduk contraria a tendência que reduz a arquitetura a uma conversão de um mero conjunto de sinais, ao construir um objeto através de um desenho. Este ato de tradução deve ser uma operação poética. A responsabilidade do arquiteto, segundo Hejduk não se limita a produzir formas novas e nunca vistas, nem a resolver problemas e necessidades pragmáticas. As formas arquitetónicas devem antes corporizar e expressar valores profundos – que carregam intensidade, complexidade, conhecimento.
Pérez-Gómez clarifica que a arquitetura de John Hejduk contribui para a reformulação da sociedade e é capaz de propor uma fisicalidade para a poesia.
A arquitetura de Hejduk não ordena uma revolução, nem um sistema, deseja e oferece sim, a possibilidade de uma transformação – ao destabilizar, contribui para a súbita compreensão da humanidade de cada um.
Cada obra de Hejduk é única e irrepetível, concretiza o espírito humano e questiona de modo a adquirir sentido. Para Pérez-Gómez, o que é afirmado na arquitetura de Hejduk não é algo que se mantém eternamente estável e imutável.
A sabedoria de Hejduk repousa no reconhecimento do grande vazio, onde todas as coisas começam, que é a verdadeira, mais intensa e significativa vibração e fonte infinita de vida humana. Pérez-Gómez revela que a arquitetura de Hejduk é sempre nova, mas constantemente familiar. A vida e a morte coincidem, tornando visível o absurdo do nada, manifestando materialmente o que é incompreensível.
Pérez-Gómez explica que o trabalho de Hejduk desafia a máquina, ao confrontar cada ser humano com o milagre da sua existência irrepetível – e a sua força reside justamente no indizível, no eco do silêncio, na estrutura do vácuo, no diálogo único estabelecido, na abertura à interpretação livre. A arquitetura de Hejduk está terminada, mas sempre inacabada, pois cabe a cada pessoa completar cada espaço.
A Wall House #2, é exemplo desse processo de apreensão da condição humana para sempre efémera. É uma casa passagem, e também uma membrana que esconde, abre e protege.
A Wall House #2 é uma passagem entre o cá e o lá, entre o conhecido e o desconhecido, entre o que acaba e o que se expande eternamente no tempo e no espaço. É simultaneamente entrada e saída e está entre o mundo exterior e o mundo interior, entre o dormir e o acordar, entre a subjetividade e a coletividade, entre o consciente e o transcendente. A Wall House #2 é, por excelência, um espaço de transição de um estado ao outro. O passado, o presente e o futuro distinguem-se. O emocional e o racional separam-se. Quem utiliza esta casa tem a possibilidade de construir imagens que pertencem a outro tempo – e juntar imaginação, sonho e memória.
Nesta casa, a grande parede protege a vida interior dos diversos volumes que se destacam, em expansão, e de forma diversa. A grande parede existe para absorver, para reter e para não mais permitir a saída. A parede funciona assim como um sítio sagrado, que diz respeito ao mistério e à profundidade da experiência humana – em certas religiões existem rituais que asseguram a passagem de um sítio ou de um estado ao outro, e que lembram da importância da transformação e da importância do outro lado.
A Wall House #2 esconde o verdadeiro eu, tal como uma membrana ou uma pele. A membrana pode ser uma morada temporária e é de natureza ambígua.
A Wall House #2 está escondida, mas olha, observa por dentro e para fora. A Wall House #2 disfarça, cobre, envolve, capta, solta, revela, projeta, protege, renega, rejeita, recolhe, engana, desassocia, incorpora, muda emoções, aprisiona e disciplina. Ao cobrir, a Wall House #2, permite a proteção contra a extrema vulnerabilidade. A Wall House #2 possibilita o acesso à verdade, ao desejar relacionar-se com emoções e padrões psicológicos que podem ser ora libertadores ora devastadores, se experienciados diretamente.
Sendo assim, o significado da arquitetura de Hejduk habita o mais profundo detalhe de cada objeto construído. E a Wall House #2 fala diretamente à experiência corporal e à consciência de cada um. A vida na arquitetura de John Hejduk é simultaneamente opaca e transparente, entre o início incerto e o que fica além. Tal como Pérez-Gómez afirma este é o poder da sua obra: ‘…to help us question destructive nihilistic assumptions and perhaps recognize our purpose as mortals on earth.’ (Pérez-Gómez 2016, 381)
Ana Ruepp