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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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"Por Todos Nós", fotografia de ensaio de Filipe Figueiredo

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Artigos de Opinião

“Por Todos Nós”

Conta Lídia Jorge que na representação de O Dia dos Prodígios no Teatro Trindade, com encenação de Cucha Cavalheiro, no Outono de 2010, houve um momento em que os acordes de “Grândola Vila Morena”, evocando o 25 de abril, suscitaram reações contraditórias, desde a emoção à indiferença. “Para aqueles que haviam nascido depois de 1974, a Revolução tinha-se tornado uma data sem outro significado que não fosse o de evocar um folclore nostálgico”. Os Memoráveis surgiu, naquela circunstância, “da mágoa por se estar a punir, por simplificação, o momento mais importante da nossa modernidade”. E assim o romance começou a ser escrito para dizer que “uma revolução só surge quando a humilhação se torna insuportável, e que embora alguns dos ideais fiquem pelo caminho, lutar contra o destino é só por si um ato de juventude e de glória. (…) E pelo meio, como num rio que leva pedras e árvores na corrente quando o caudal é impetuoso, existe a imperfeição”. E se houve jovens que abandonaram a sala no momento supostamente épico, deveriam ser o epicentro da mensagem e da reflexão. Eduardo Lourenço falou, aliás, de “maravilhosa imperfeição” para definir os portugueses. E eis que uma transfiguração histórica transformada em mitologia, leva três jovens a recuarem no tempo, para tentarem perceber o que havia de durável na interrogação sobre o destino.

A ópera Por Todos Nós baseia-se no romance de Lídia Jorge Os Memoráveis e permite assinalar os cinquenta anos do 25 de Abril de 1974. O Teatro Aberto e a Opart/ Teatro Nacional de S. Carlos puseram de pé uma “obra de arte total” com libreto, encenação e dramaturgia de João Lourenço e Vera San Payo de Lemos e música de Eurico Carrapatoso. E é importante que os libretistas e o encenador tenham resolvido “conferir ao Anjo da História o papel que lhe convém, o ser motor da mitologia de um momento que pairará sobre as nossas cabeças, enquanto a memória for necessária e tida como um bem comum a partilhar, entre muitos”. Não  se trata, porém, de um momento histórico que se encontra congelado no tempo, meio século atrás. Para um jovem, cinquenta anos é uma eternidade, que se desvanece no tempo. A nostalgia dos protagonistas perde-se, mas a consideração dos desejos e das esperanças prende-se à atualidade, que permanentemente se renova, e esta não esquece os outros momentos marcantes de uma nação com quase novecentos anos de vida, que soube lidar com a liberdade e a opressão ao longo dos séculos. A vontade emancipadora é antiga e cíclica e por isso faz sentido interrogar os protagonistas da História, como reveladores da razão de ser das vontades que se exprimem. E somos nós “que precisamos de ser lembrados (diz a autora) de que há momentos históricos que não podem ficar entalados entre datas comuns. Há momentos marcantes que tentam sair do fio cronológico para serem parteiros de novos tempos”. Não se trata, pois, de uma evocação nostálgica, mas de uma interrogação verdadeira. E vem à baila Xenofonte: “Quem desenhou o plano e comandou as movimentações a partir da Pontinha? Nem eu, nem ele, nem nós, nem vós. Foram eles os cinco mil” – ouve-se a voz do Oficial de Bronze, já que ao estratega, o Campeador, é poupada a fala… A história constrói-se. E a voz final dirá: “Vamos para essa casa iluminada, sem candeia / espadeirando o escuro. Que noite prodigiosa / é o futuro”.

GOM

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