O tempo passa, a idade avança, o progresso tecnológico evolui, o uso dos telemóveis e das redes sociais deslumbra, sem nos consciencializarmos que ler assiduamente em aparelhos com ecrãs que têm por base radiações e fontes luminosas faz mal aos olhos. Por maioria de razão ao olhar e ler regularmente no telemóvel, dada a sua dimensão, mobilidade, portabilidade, interdisciplinaridade e massificação.
Além do telemóvel, este não fazer bem aos olhos, por leitura e visualização excessiva, é uma regra extensiva ao computador, televisores, ecrãs de cinema, citando apenas os de uso mais comum. Dado o seu uso crescente, há quem se queixe de dores de cabeça, tonturas, olhos cansados e lacrimosos. A que acrescem os efeitos das radiações ionizantes e das que ainda se desconhecem.
É uma constatação do dia a dia, agudizando-se à medida que o digital e o eletrónico se consolidam e progridem, em que o não querer bem aos olhos é crescente cada vez que há uma substituição progressiva do analógico e do papel pela digitalização.
O que contrasta com o querer bem aos olhos quando lemos em papel, nomeadamente através de livros, jornais e revistas.
O que fui experienciando, a título pessoal, por conversas sociais e leituras, o que pode possibilitar o surgimento de doenças novas, em especial a nível oftalmológico, nas novas gerações.
Olhar e ler em jornais, revistas e livros não faz mal aos olhos, ao inverso do que sucede olhar e ler, progressivamente, em plataformas eletrónicas e fontes luminosas, de tal modo que alguém, com humor, escreveu:
“Talvez os jornais se possam vender nas farmácias. Fazem bem aos olhos. Têm superfícies generosas. Não emitem raios luminosos. Não esmifram nem queimam os nossos ricos olhinhos.
(…) Os jornais de papel deveriam ser oferecidos a todos os viajantes (…) com um abraço da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia e outro do Estado Português, a quem competiria financiar esta obra pública. Porque não conseguir também a colaboração de um produtor de lenços antibacterianos, para limpar a tinta dos dedos?” (Miguel Esteves Cardoso, Público).
E uma vez que, para muitos, circula e se instalou a ideia de que o que conta é ler, sendo indiferente ler-se num ecrã de telemóvel ou em livro, Pacheco Pereira sugeriu que se faça essa experiência lendo a Guerra e Paz, de Tolstoi. Desafiou que alguém o tentasse, tipo teste, e disponibilizou-se a dar um prémio, a quem lesse GP num ecrã de telemóvel, o que não resultou, sendo de opinião que há limitações objetivas nos nossos sentidos, que precisam de “espaço” para ler, o que o papel tem. Além de querer bem aos nossos olhos!
Se é verdade e inevitável que devemos aproveitar qualquer coisa que o digital faça de melhor, com benefício para todos, também é verdade que nem sempre isso sucede. Se é verdade que o processador de texto nos fez esquecer as máquinas de escrever, os ecrãs emitentes de radiações luminosas (com maior impacto nos telemóveis) não fizeram esquecer a leitura em papel, nem acabaram, felizmente, com o livro em formato clássico, como tantos diagnosticaram.
Porque, afinal, há também que amar, mimar e pensar nos nossos olhos!
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 264