Folhetim de Verão – Capítulo I
A iniciarmos o folhetim deste Verão de 2026 partimos do poema de tradição oral que nos foi transmitido no “Romanceiro” por Almeida Garrett. Segundo o testemunho do grande poeta, estamos perante uma xácara anónima romanceada, transmitida oralmente, inspirada provavelmente na viagem da nau Santo António, que transportou Jorge Albuquerque Coelho, filho de Duarte Coelho Pereira, donatário da capitania de Pernambuco, desde o porto de Olinda até à cidade de Lisboa, no ano de 1565. O poema narra a viagem atribulada dos tripulantes durante uma longa travessia marítima e encontra-se descrita na “História Trágico-Marítima” mas, mais próximo de nós, através de um versão saborosa de Ariano Suassuna. Seguiremos em continuados tais descrições, com o ritmo próprio da narração característica de uma tradição literária bem portuguesa, que Unamuno considerou corresponder à ligação íntima entre o lirismo trovadoresco e a tragédia marítima. Garrett estranha, porém, que esta xácara seja rara, sobretudo num povo de navegantes, que vive mais no mar que da terra. Hoje veremos apenas os primeiros passos do romance transcrito por Garrett, para depois relermos o que a “História Trágico-Marítima” nos traz. E nestes prolegómenos, lembramos que Sophia de Mello Breyner, na relação com seu avô D. Tomaz, foi com esta “Nau Catrineta” que teve o primeiro contacto com a poesia popular e com os seus ritmos. Decorando este romance a jovem encontrou de modo natural a vivência literária.
Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.
Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
Que a não puderam tragar.
Deitaram sortes à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general…
Começa assim o poema, onde se narram as tribulações a que se submeteram aqueles tripulantes na longa viagem que se tornou dramática. Os mantimentos esgotaram-se e os perigos das ameaças dos corsários do Atlântico fizeram-se sentir, perigando a possibilidade de chegarem ao destino. Garrett diz-nos que o nome da embarcação se deve ao diminutivo de afeição posto na Ribeira das Naus a algum Galeão Santa Catarina. “Dar-lhe-iam esse apelido coquet por sua airosa mastreação, pelo talhe elegante do seu casco, por alguma dessas qualidades graciosas que tanto aprecia o olho exercitado fino da gente do mar”. Entre as narrativas em prosa há uma que tem por título “Naufrágio que passou Jorge de Albuquerque Coelho, vindo do Brasil no ano de 1565”, que não é muito longe de se parecer com a do romance presente. “Larga e difícil viagem, temporais assombrosos, fome extrema, tentativas de devorarem os mortos, resistência do comandante a esta bruteza, milagroso surgir da barra de Lisboa quando menos o esperavam, e quando menos sabiam em que paragens se achassem”…E não falta a Serra de Sintra com as três filhas a tecer. Este é o quadro em que nos encontramos, cabe agora seguir a história. Seguiremos as ilustrações de Almada Negreiros no cais de Alcântara – e hoje é o primeiro dos nossos Almirantes, D. Fuas Roupinho, que apresentamos.
(Continua)
