auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

Categories

A Vida dos Livros

“O Plantador de Abóboras”

O romancista Luís Cardoso é uma referência nas literaturas lusófonas, sendo o convidado em Penafiel para a Escritaria 2026.

Luís Cardoso é já um símbolo. Quando lemos a sua obra, descobrimos as raízes timorenses. Leia-se “O Plantador de Abóboras” (2020), tudo aqui representa uma extraordinária vivência singular e comunitária e a força de um testemunho irrepetível. “A mulher não coleciona, procura nos gestos a construção. De uma casa, por exemplo”. Como se afirma na sinopse da obra: “Dizer o que acontece nestas páginas arrisca reduzir o que de humano, tão humano, o escritor faz acontecer. A cada passo nos comovemos, rimos e refletimos. Timor, como cenário mítico, não voltará a ser o mesmo depois desta viagem”, onde se encontram o concreto e o mítico, Sancho Pança e Chibanga, as rosas e o café, o cavalo e o ganso, o Império Colonial e o Oriente são chamados para narrar os modos de fazer mundos. “Conseguiremos ser donos das nossas sementes? Poderá o mundo ser uma abóbora?”. A imaginação fértil do autor abre perspetivas no sentido de ligar o teor romanesco a uma identidade própria muito marcada. No seio da Indonésia, a história única do povo timorense determinou o caminho da independência, não como um divórcio, mas como uma complementaridade enriquecedora. E essa é uma característica de Luís Cardoso: o nunca esquecer as suas raízes e a marca indelével da cultura de Timor-Leste, em ligação com a sua história e a sua especificidade.

José Eduardo Agualusa tem razão quando diz relativamente à “Crónica de Uma Travessia” (1997) que Luís Cardoso constitui a memória da vivência do “combate pela liberdade em Timor: o resgate da memória. Num país quase sem literatura escrita, o passado é um tempo de combustão, frágil, volátil, que rapidamente se consome e a “Cronica” exprime com pujança o registo memorialista. É um texto assumidamente autobiográfico, “portanto realista – com o exuberante universo mágico em que se move o povo timorense e que em grande medida alimenta a sua literatura oral.”. E Agualusa confessa a surpresa que sentiu ao ler este livro, “descobrir um território culturalmente integrador, construído a partir de inúmeros encontros (imigrantes cabo-verdianos, degredados políticos portugueses, ex-militares guineenses e angolanos), espaço refundador da lusofonia, e um suave elogio à mestiçagem. Timor precisava deste livro”. Nós acrescentamos que as lusofonias (insisto no plural) precisam deste livro, desta reflexão e deste autor.

Em toda a sua obra Luís Cardoso faz da escrita uma constante relação complexa em que o encanto exótico de um lugar nos chama a viver a distância como um modo de nos descobrirmos na relação com as diferenças. Afinal, este pedaço da Ásia completa-nos, e lembramos Ruy Cinatti que, como poeta, se apaixonou por estas tradições tão distantes e diferentes. E Luís Cardoso pôde demonstrar como a cultura timorense atraiu Cinatti, um poeta genuinamente português e europeu, fascinado pela natureza e pela cultura das pessoas. O que distinguiu Timor-Leste? As características únicas do povo, a convergência humana e as tradições cristãs. A resistência em vários momentos até ao episódio de Santa Cruz  pôde tornar este encontro de povos e culturas uma solidariedade que conduziu à construção de uma nação nova. Agualusa sabe de que fala. Como bem se evidencia na “Crónica de Uma Travessia”, há no escritor uma escrita lírica de grande sensibilidade, que nos transmite sensações, cores, acontecimentos e pessoas, que tornam esta leitura marcante e inesquecível. A cada passo isso torna-se evidente como num outro romance “Para Onde vão os Gatos Quando Morrem?” (2017), onde temos uma viagem que, naturalmente, corre ao lado da história de Timor Leste, com fantasia e ironia que marcam desde sempre a voz do autor e nos fazem suspirar por essas terras misteriosas e de aterradora beleza. Como lembrou Frei Bento Domingues: “Nesta viagem, Luís Cardoso construiu, em português, uma nova literatura de vários mundos e de várias religiões, sabendo que «Deus é muito melhor do que tudo aquilo que os homens leram a Seu respeito, de olhos abertos lokematan ou de olhos fechados takamatan”.

Já em “Hotel Timor – The Poets and Dragons Society” (2025) fala-se da dor e da resistência, do esquecimento e da memória, do peso das ausências e da obstinação em continuar a viver, mesmo quando tudo em redor parece desaparecer. Entre Lisboa e Timor, no simbólico Hotel, entre a partida e o regresso impossível, estamos num romance que habita a fronteira do exílio e da diáspora lusófona. E assim, entramos num espaço onde a literatura se torna morada de sombras e de luzes, ou seja, um lugar onde a palavra resiste, como último refúgio contra a indiferença e a rendição.

Luís Cardoso nasceu em Kailako, no interior de Timor-Leste. Muitas vezes recorda o pai, enfermeiro, cuja experiência familiar permitiu conhecer a diversidade da terra e sobretudo os diversos idiomas timorenses. Estudou nos colégios missionários de Soibada e de Fuiloro e no seminário dos jesuítas em Dare, bem como no Liceu Dr. Francisco Machado em Díli. Licenciou-se em Silvicultura no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa. Dir-se-ia que a memória e a experiência de Ruy Cinatti estão presentes na sua vida. Desempenhou as funções de Representante do Conselho Nacional da Resistência Maubere em Portugal. É autor de diversos romances marcantes como: Crónica de Uma Travessia (1997), Olhos de Coruja Olhos de Gato Bravo (2002), A Última Morte do Coronel Santiago (2003), Requiem para o Navegador Solitário (2007) e O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação (2013). A cada passo, verificamos estarmos perante um autor fundamental na encruzilhada de influências lusófonas, dando-nos uma definição multímoda duma realidade original, entre um cadinho e um caleidoscópio.

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *